Voltar para o blog

Você é mais que o seu crachá: quando o trabalho engole a vida

Por Dayele Assis · 2026-10-19

Você é mais que o seu crachá: quando o trabalho engole a vida

São oito e pouco da noite. Você já está em casa, a janta no fogo, alguém da família contando como foi o dia. E o celular vibra em cima da mesa. É o grupo do trabalho.


Você nem precisa abrir para sentir: o ombro sobe, o estômago aperta, a cabeça volta inteirinha para a empresa. O corpo está em casa. Você, não.


Deixa eu te perguntar uma coisa, com carinho: quando foi a última vez que você saiu do trabalho e o trabalho também saiu de você?


Talvez você nem lembre. E eu entendo. Hoje a gente carrega o escritório no bolso. O crachá fica na gaveta, mas a cobrança vai junto para o jantar, para o domingo, para a cama.


E isso tem um preço. Uma reportagem da Band mostrou que os afastamentos por burnout pelo INSS cresceram 296%, saindo de 1.760 em 2023 para cerca de 7 mil em 2025. Na mesma matéria, uma pesquisa da ABQV com empresas que somam 300 mil funcionários apontou que 89% delas não têm nenhuma regra sobre mensagens fora do expediente. Eu olho para esses números e não vejo estatística. Vejo gente. Gente que foi aguentando, aguentando, até o corpo dizer chega.


O burnout é esse esgotamento que nasce do trabalho: o cansaço que o fim de semana não resolve, a irritação com tudo, aquela sensação de estar vazia por dentro, de não dar mais conta. E ele quase nunca chega de uma vez. Vai se instalando aos pouquinhos, enquanto a gente repete que é só uma fase.


Talvez você já tenha dito isso também.


Eu percebo uma coisa muito comum: a gente compara a nossa dor com a dos outros e conclui que não tem o direito de reclamar. "Pelo menos eu tenho emprego." "Meu colega está muito pior." E é verdade que, às vezes, o nosso problema no trabalho parece pequeno perto do que um amigo está vivendo em casa, com um filho doente ou um casamento desmoronando. Mas cansaço não é competição. O seu esgotamento não precisa ser o maior do mundo para merecer cuidado.


E aqui entra uma coisa em que eu acredito.. Em O Livro dos Espíritos, Kardec dedica um capítulo inteiro à Lei do Trabalho. Ali o trabalho aparece como uma lei da natureza, algo que nos faz crescer, desenvolve a inteligência e nos coloca a serviço uns dos outros. Trabalhar é bom, é digno, faz parte da nossa evolução. Mas o mesmo capítulo fala do repouso como uma necessidade, para que a gente recupere as forças. E quando os Espíritos são perguntados sobre qual é o limite do trabalho, a resposta é curtinha: o limite das forças.


Descansar não é preguiça. É obedecer a uma lei que também é divina. Quem passa do limite das próprias forças não está sendo mais virtuoso. Está desrespeitando o instrumento que recebeu para viver.


Freud também pensou muito sobre isso. Em O mal-estar na civilização, ele escreveu que o trabalho é uma das coisas que mais nos prendem à realidade: nos dá um lugar no mundo, nos liga às outras pessoas e pode ser fonte de muita satisfação. Mas ele observou também que a maioria das pessoas trabalha mais por necessidade do que por gosto. Quando o trabalho perde o sentido e vira só obrigação, ele deixa de nos sustentar e passa a nos consumir.


E tem um ponto que eu acho delicado. Às vezes o trabalho engole a vida porque virou a nossa identidade inteira. A gente se apresenta pelo cargo. Se sente valiosa só quando produz. E no dia em que não rende, parece que não vale nada. Freud chamou de supereu aquela voz interna que cobra, que compara, que diz que ainda não é suficiente. Repara se essa voz não fala um pouco como aquele chefe que você mais teme. Às vezes ela fala até mais alto que ele.


Tem um psicanalista que eu gosto muito, o Winnicott, que falava de um "falso self". É uma espécie de casca que a gente cria para se adaptar ao que esperam de nós. Essa casca tem a sua utilidade: protege, ajuda a funcionar. O problema é quando ela toma o lugar de tudo, e a gente passa a se sentir viva só por fora. Funcionando, mas não vivendo.


Então deixa eu te dizer uma coisa que às vezes a gente esquece: você é mais que o seu crachá. Antes do cargo, você é alguém que ri de certas piadas, que tem uma música preferida, que tem gente esperando em casa. Um espírito em caminhada, com uma vida que não cabe numa planilha.


Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: crie um ritual de saída. Pode ser tirar o crachá e deixá-lo sempre no mesmo lugar, trocar de roupa assim que chegar, ou fazer uma prece curtinha no caminho de casa. Um gesto que diga ao corpo e à mente: por hoje, acabou.


O segundo: escolha um horário em que as notificações do trabalho ficam em silêncio. Se não der para ser todo dia, comece por uma noite da semana. E, se for possível, converse com a sua equipe sobre isso. Muitas vezes o outro está tão cansado quanto você, só esperando alguém dizer primeiro.


E o terceiro: antes de dormir, pergunte a si mesmo o que, naquele dia, te deu vida fora do trabalho. Uma conversa, um abraço, um café sem pressa. Se a resposta for "nada" por muitos dias seguidos, isso é um sinal. E sinal merece atenção, às vezes com a ajuda de um médico ou de um psicólogo.


Antes de você seguir a sua segunda-feira, fica aqui uma pergunta para levar com você:


Se amanhã você não tivesse o seu cargo, quem você ainda seria?


O trabalho é parte importante da sua vida. Mas não é a sua vida inteira. Você merece voltar para casa por inteiro, e ser recebida por você mesma também.


E quando a noite chegar e o celular finalmente ficar quieto, te convido a ouvir o Acalme sua Mente, às 23h, na nossa rádio. E para os outros momentos do dia, o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, está com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Porque o cuidado continua todos os dias.



Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


Outros posts