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Criar para se reencontrar: arte, cinema e cuidado de si

Por Dayele Assis · 2026-11-05

Criar para se reencontrar: arte, cinema e cuidado de si

Quando foi a última vez que você fez alguma coisa só pelo prazer de fazer?


Não estou falando de trabalho, nem de tarefa da casa, nem daquela receita que precisava sair porque o almoço tinha hora. Estou falando de desenhar à toa num canto do caderno, cantar alto no carro, plantar uma muda, escrever umas linhas que ninguém vai ler. Ou simplesmente sentar no escuro de uma sala de cinema e se deixar levar por uma história.


Se você precisou parar para pensar antes de responder, deixa eu te dizer: você não está sozinho.


Hoje, 5 de novembro, é o Dia Nacional da Cultura e da Ciência e também o Dia do Cinema Brasileiro. E eu quis aproveitar a data para conversar com você sobre uma coisa que a gente costuma tratar como luxo, mas que eu acredito que é cuidado: criar, e se deixar tocar pelo que outras pessoas criaram.


Repara como a vida adulta vai empurrando a criatividade para o fim da fila. Primeiro vêm as contas, o trabalho, os filhos, a casa, os compromissos. A gente promete que, quando sobrar um tempinho, vai voltar a pintar, a tocar violão, a costurar, a dançar. Só que o tempinho nunca sobra. E, sem perceber, a gente vai virando alguém que só funciona.


Talvez você já tenha sentido isso também. Aquela sensação de que os dias estão todos iguais, de que você está cumprindo a agenda, mas não está exatamente vivendo.


Pensa numa cena bem comum. Uma mulher passa a semana resolvendo problemas no trabalho, chega em casa, ajuda o filho com a tarefa, faz o jantar, responde mensagens até tarde. No sábado, por insistência de uma amiga, vai a uma aula de cerâmica. Suja as mãos de barro, erra, ri do vaso torto que saiu. E volta para casa estranhamente leve. Nada na vida dela mudou: as contas são as mesmas, o chefe é o mesmo. Mas alguma coisa dentro dela respirou.


O que aconteceu ali?


Winnicott, psicanalista, que escreveu um livro chamado O brincar e a realidade, publicado em 1971. Ele observava bebês e crianças e percebeu que é brincando que a gente se descobre. E ele não parou na infância: para ele, o adulto também precisa desse espaço de brincar, onde não existe certo nem errado, onde dá para experimentar sem ser julgado. É ali que a pessoa se sente real, se sente viva, sente que a vida vale a pena.


Winnicott chamava esse lugar de espaço transicional. Parece complicado, mas é simples: é aquele intervalo entre o mundo de dentro e o mundo de fora, em que você está tão envolvido com o que faz que esquece do relógio. A criança com o seu bichinho de pelúcia, o adulto com o caderno de desenho, com a horta, com um filme que mexe com ele. Para Winnicott, a arte, a cultura e a vida religiosa também moram nesse lugar.


E aqui tem um detalhe importante. Ele percebia que o contrário de viver criativamente é viver só obedecendo, só se adaptando ao que o mundo exige. Muita gente sofre não de uma tristeza escancarada, mas de uma sensação de vazio, como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Faz tudo direitinho e, mesmo assim, sente que não é ela que está ali.


Por isso eu digo: o vaso torto de cerâmica não é bobagem. Ele é um pedaço de você que voltou para casa.


E o cinema também entra nessa conversa. Quando um filme nos toca, a gente chora a dor de um personagem que nem existe e, de repente, percebe que estava chorando uma dor nossa, que não tinha encontrado outro jeito de sair. A história do outro empresta palavras e imagens para aquilo que a gente ainda não sabia dizer. Quantas vezes a gente sai da sala de cinema entendendo um pouco melhor a própria vida?


Agora, eu quero te trazer uma ideia em que eu acredito.


O Livro dos Espíritos, na parte das leis morais, fala da Lei do Progresso. Kardec explica ali que o progresso é uma lei da natureza: o Espírito foi criado para crescer, para desenvolver pouco a pouco as faculdades que traz em si. Ninguém nasce pronto, e ninguém foi feito para ficar parado.


Quando eu leio isso, penso que os nossos talentos não são enfeite. São sementes. Aquela facilidade que você tinha para desenhar quando era criança, o gosto pela música, o jeito de contar histórias, o capricho com as plantas… tudo isso faz parte de quem você é. Deixar de lado por completo é como guardar uma semente na gaveta.


Lembra da parábola dos talentos, no Evangelho de Mateus? O servo que enterra o talento com medo de perdê-lo é justamente o que não faz nada crescer. E eu acho que muitos de nós enterramos os nossos por medo: medo de não ser bom o bastante, de achar que é perda de tempo, de ouvir que isso não dá dinheiro.


Só que criar não precisa ser profissão. Não precisa ser bonito. Não precisa ir para a internet. Precisa ser seu.


E repara como uma coisa conversa com a outra. A psicanálise nos mostra que é criando que a gente se sente vivo e se reencontra. A Doutrina Espírita nos lembra que desenvolver o que trazemos dentro faz parte da nossa caminhada. Os dois caminhos chegam ao mesmo lugar: cuidar da sua capacidade de criar é cuidar da sua alma.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: escolha um filme brasileiro para assistir com calma, sem o celular na mão. Pode ser sozinho ou com alguém que você ama. No fim, em vez de só dizer se gostou ou não, pergunte a si mesmo: o que essa história mexeu em mim?


O segundo: separe vinte minutos para fazer alguma coisa com as mãos, sem objetivo. Desenhar, pintar, cozinhar uma receita nova, mexer na terra, escrever uma carta. Se der vontade de julgar o resultado, lembre do vaso torto. Não é para ficar perfeito, é para você estar presente.


E o terceiro: lembre de uma coisa que você amava fazer quando era criança e que foi ficando para trás. Só lembre, com carinho. Se fizer sentido para você, faça uma prece agradecendo por esse talento e pedindo coragem para dar a ele um pouquinho de espaço de novo.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Que pedaço de você está guardado na gaveta, esperando a chance de voltar a brincar?


Você não precisa reinventar a sua vida para se reencontrar. Às vezes, basta um lápis, um pouco de barro, uma música ou uma boa história na tela. A alma reconhece quando a gente volta para casa.


E se quiser companhia para esses pequenos reencontros do dia a dia, te convido a abrir o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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