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Sozinho no meio de todo mundo: solidão em tempos de hiperconexão

Por Dayele Assis · 2026-11-03

Sozinho no meio de todo mundo: solidão em tempos de hiperconexão

Você já reparou quantas pessoas cabem dentro do seu celular?


São centenas de contatos, vários grupos, gente que você segue, gente que te segue. O aparelho vibra o dia inteiro. Tem bom-dia com flor no grupo da família, tem meme no grupo do trabalho, tem foto de viagem de alguém que você não vê há anos.


E mesmo assim, às vezes, chega a noite, você olha para aquela lista enorme e pensa: para quem eu ligaria agora, se precisasse conversar de verdade?


Se essa pergunta já te deu um nó na garganta, eu quero que você saiba de uma coisa: você não está sozinho nessa solidão.


Parece contradição, mas não é. Uma pesquisa recente, o Panorama da Saúde Mental 2026, do Instituto Cactus com a AtlasIntel, mostrou que 36,5% dos brasileiros se sentem isolados. Entre quem passa três horas ou mais por dia nas redes, esse número sobe para 46,8%. E, entre as pessoas que sentem solidão com frequência, 32,1% já buscaram companhia numa inteligência artificial (leia a matéria aqui).


Eu li esses números e fiquei um tempo pensando neles. Nunca estivemos tão conectados. E talvez nunca tenhamos nos sentido tão sós.


Deixa eu te dizer o que eu percebo. A gente confundiu estar em contato com estar em companhia. Curtir a foto de alguém não é o mesmo que perguntar como ela está. Mandar um emoji de coração não é o mesmo que sentar do lado. A tela dá a sensação de que está todo mundo ali, pertinho. Mas, quando a gente precisa de um abraço, ela não abraça.


Pensa numa cena bem comum. A família inteira reunida no almoço de domingo, cada um olhando para o seu celular. O pai vendo notícia, a filha no vídeo curto, a avó mandando áudio para a irmã que mora longe. Estão todos na mesma mesa e, ao mesmo tempo, cada um num lugar diferente. Ninguém fez nada de errado. Mas, no fim da tarde, fica aquela sensação de que o encontro não aconteceu.


Talvez você já tenha vivido isso também.


E tem outra coisa que eu vejo muito. A gente compara a nossa vida de bastidor com a vitrine dos outros. Abre o Instagram e todo mundo está numa festa, numa viagem, num jantar cheio de amigos. Aí a gente, de pijama no sofá, conclui que é o único que está sozinho numa terça-feira à noite. Só que aquela foto é um recorte. Do outro lado da tela, muita gente está sentindo exatamente o mesmo que você.


Agora, eu preciso te contar uma coisa que eu acho bonita.


O psicanalista Winnicott escreveu um texto chamado A capacidade de estar só, em 1958. E ele faz uma diferença que mudou o meu jeito de olhar para esse assunto. Uma coisa é estar só. Outra coisa é sentir-se abandonado.


Winnicott percebeu que a capacidade de ficar bem sozinho não nasce da solidão. Ela nasce da companhia. O bebê aprende a ficar tranquilo, brincando no seu cantinho, porque sabe que tem alguém por perto, que não vai sumir. Com o tempo, essa presença vai morar dentro dele. E é por isso que, quando adulto, ele consegue passar uma tarde inteira consigo mesmo sem se sentir vazio.


Repara como isso explica muita coisa. Tem gente que mora sozinha e vive em paz. E tem gente que está cercada de pessoas, com o celular cheio de mensagens, e se sente abandonada por dentro. A diferença não está em quantas pessoas estão ao redor. Está em quantas presenças verdadeiras a gente conseguiu guardar no coração.


Por isso eu acho que a saída para a solidão não é ter mais seguidores. É ter mais encontros de verdade, mesmo que sejam poucos.


E aqui entra uma coisa em que eu acredito. Em O Livro dos Espíritos, na parte sobre a Lei de sociedade, Kardec pergunta aos Espíritos se a vida em sociedade faz parte da natureza humana. E a resposta é que sim: Deus nos fez para viver juntos. Os Espíritos explicam que ninguém tem todas as faculdades sozinho, e que é justamente na convivência que a gente se completa, se ajuda e cresce. O isolamento, dizem eles, empobrece a alma, porque nos afasta da oportunidade de amar e de aprender com o outro.


Eu gosto de pensar que a gente veio para este mundo para o encontro. Não para a perfeição, não para a vitrine. Para o encontro.


E isso me lembra também de outra coisa. Às vezes, a gente está tão ocupado esperando que alguém nos procure que esquece que o outro também está esperando. Aquele amigo que sumiu pode estar se sentindo tão sozinho quanto você. Aquele vizinho que só cumprimenta no elevador pode estar precisando de uma conversa. A caridade, que o espiritismo coloca no centro de tudo, começa muitas vezes num gesto pequeno: lembrar que o outro existe.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: escolha uma pessoa e troque a mensagem por uma ligação. Pode ser curta. Ouvir a voz de alguém tem um calor que o texto não tem.


O segundo: crie um momento sem tela com quem mora com você. Uma refeição, um café, uma caminhada. Deixe o celular em outro cômodo e repare no que muda na conversa.


E o terceiro: experimente ficar alguns minutos sozinho, de propósito, sem distração. Sem rede, sem música, sem notícia. Só você. Pode ser numa prece, pode ser olhando pela janela. Aprender a ser boa companhia para si mesmo também é um jeito de curar a solidão.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Quem é a pessoa com quem você está sempre conectado, mas há muito tempo não encontra de verdade?


Talvez valha a pena procurá-la hoje. E se a solidão estiver pesada a ponto de tirar o seu sono, a sua vontade ou a sua alegria, procure ajuda. Conversar com um profissional não é sinal de fraqueza. É um encontro também.


Que você lembre, nos dias mais quietos, que nunca está tão sozinho quanto parece.


E se quiser uma presença amiga no seu dia, te convido a baixar o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, se a noite ficar silenciosa demais, liga a rádio e fica com a gente no programa Acalme sua Mente, às 23h. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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