Por Dayele Assis · 2026-10-29
Você lembra qual foi o último livro que leu até o fim?
Não precisa responder rápido. Talvez a resposta venha com um sorriso. Talvez venha com uma pontinha de culpa: "nossa, faz tanto tempo…". Talvez você lembre da pilha na cabeceira, de livros começados e esquecidos, enquanto o celular, ali do lado, nunca fica sem bateria.
Se for o seu caso, fica tranquilo. Eu não vim aqui te dar bronca. Vim conversar.
Hoje, 29 de outubro, é o Dia Nacional do Livro, uma data que lembra a fundação da Biblioteca Nacional, em 1810. E eu queria aproveitar para falar de livro de um jeito um pouco diferente. Não como obrigação, nem como meta de "ler trinta livros no ano". Mas como companhia.
Pensa comigo numa cena bem comum. É noite, a casa finalmente silenciou. Você deita, pega o celular "só para ver uma coisinha" e, quando percebe, passou uma hora. Vídeo de receita, briga de desconhecidos, notícia ruim, propaganda de algo que você nem queria. E vai dormir mais cansado do que deitou. A cabeça cheia, e o coração meio vazio.
Talvez você já tenha vivido isso também.
Agora imagina a mesma noite com um livro. Dez páginas, quinze, não importa. O ritmo muda. A respiração muda. Ninguém ali está tentando te vender nada nem te convencer de nada. É só uma voz contando uma história, no tempo que você escolhe.
Eu percebo que a gente vive dizendo que não tem tempo. E é verdade, a vida anda corrida. Mas, muitas vezes, o problema não é a falta de tempo. É para onde ele está escorrendo sem a gente perceber.
Freud tem um texto de 1908 chamado "Escritores criativos e devaneio". Nele, ele compara o escritor à criança que brinca. A criança, quando brinca, cria um mundo só dela e leva aquele mundo muito a sério, coloca emoção de verdade ali. O escritor faz algo parecido com as suas histórias. E Freud dizia que uma das grandes graças da literatura é permitir que nós, leitores, possamos desfrutar das nossas próprias fantasias sem culpa e sem vergonha.
É por isso que a gente chora com um personagem que nunca existiu. Ou sente raiva, torce, fecha o livro e fica um tempo olhando para o teto.
Sabe por quê? Porque, muitas vezes, aquele personagem está dizendo algo sobre nós. Na psicanálise, a gente chama isso de identificação: reconhecer no outro um pedaço da nossa própria história. Quando você se emociona com a mãe cansada de um romance, com o filho que não consegue voltar para casa, com a mulher que recomeça aos cinquenta anos, talvez esteja, de algum jeito, se emocionando com você.
Deixa eu te dar um exemplo bem do dia a dia. Tem gente que perde o pai e não consegue chorar. Precisa ser forte para todo mundo: resolver papelada, cuidar da mãe, voltar ao trabalho na segunda-feira. Meses depois, lendo um romance qualquer, chega na despedida de um personagem e desaba ali, no sofá. Não foi o livro que causou aquela dor. A dor já estava lá, esperando uma porta. O livro só abriu.
Ler, então, não é fugir de si. Muitas vezes é o caminho mais gentil para voltar.
O psicanalista Winnicott, que falava de um espaço que fica entre o nosso mundo de dentro e o mundo de fora. É o espaço do brincar, que na vida adulta continua vivo na arte, na música, na cultura. É ali que a gente descansa de ter que ser só realidade o tempo todo. Um livro é um desses lugares. Um cantinho onde dá para respirar, imaginar e voltar para a vida um pouco mais inteiro.
E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. No capítulo VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, há uma mensagem do Espírito de Verdade que diz: "Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo."
Repara na ordem. Primeiro, o amor. Depois, a instrução. E uma não caminha sem a outra.
Não é por acaso que Kardec, antes de organizar a Doutrina Espírita, foi educador a vida inteira. Para o espiritismo, o espírito progride também pela inteligência, e o que a gente aprende de verdade não se perde. Mas instruir-se não é acumular informação, nem ler para parecer culto. É deixar que o que a gente lê nos transforme por dentro e nos torne mais capazes de amar.
Eu acho que um livro bom faz exatamente isso. Ele alarga o coração. Faz a gente entender, de dentro, a dor de alguém que vive uma vida completamente diferente da nossa. E quem entende mais, julga menos.
Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.
O primeiro: troque dez minutos de tela por dez páginas. Não precisa ser antes de dormir. Pode ser no ônibus, na fila do banco, no intervalo do almoço. Dez páginas por dia, no fim do mês, viram um livro inteiro.
O segundo: volte a um livro que já te fez bem. Releitura também é encontro. Você mudou desde a última vez, e o mesmo livro vai te dizer coisas novas.
E o terceiro: leia com um lápis na mão. Sublinhe a frase que te tocou e, à noite, se pergunte por que justamente ela mexeu com você. Às vezes a resposta diz mais sobre o seu momento do que muita conversa.
Fica aqui uma pergunta para você levar com você:
Que história você está precisando ouvir agora, e que livro poderia te fazer essa companhia?
Talvez ele já esteja aí, na sua estante, esperando há anos. Talvez seja um que alguém te indicou e você nunca foi atrás. Não importa. O importante é lembrar que, nas noites em que a gente se sente sozinho, uma boa história pode ser um abraço em forma de palavras.
E se você quiser mais uma companhia para os seus dias, te convido a conhecer o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, nas noites em que nem as páginas conseguem acalmar o coração, a nossa rádio tem o programa Acalme sua Mente, às 23h. Porque o cuidado continua todos os dias.
Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.