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Parar não é fracassar: quando a ansiedade pede um afastamento

Por Dayele Assis · 2026-10-27

Parar não é fracassar: quando a ansiedade pede um afastamento

Você já acordou numa segunda-feira com o coração disparado só de pensar no trabalho?


Não era preguiça. Não era falta de vontade. Era um aperto no peito, um nó no estômago, a cabeça já cheia antes mesmo de levantar da cama. E aí vem aquele pensamento cruel: "todo mundo dá conta, por que só eu não consigo?".


Se você já passou por isso, ou está passando agora, eu queria conversar um pouquinho com você hoje.


Primeiro, deixa eu te dizer uma coisa: você não está sozinho. Um levantamento divulgado neste mês, feito com dados públicos do INSS e do Ministério da Previdência, mostrou que os transtornos de ansiedade foram a principal causa de afastamento do trabalho por saúde mental no primeiro semestre de 2026. Foram 74.016 afastamentos, cerca de um terço de todos os casos ligados à saúde mental (Mirian Gasparin).


Setenta e quatro mil pessoas. Cada uma com um nome, uma família, uma história. Muitas delas, eu imagino, sentindo vergonha de algo que não é motivo de vergonha.


Porque eu percebo muito isso: quando o corpo quebra, a gente aceita parar. Ninguém acha estranho alguém se afastar por causa de uma perna engessada. Mas quando é a mente que pede socorro, aparece a culpa. "Vão achar que é frescura." "Vão pensar que eu sou fraco." "Eu deveria aguentar."


Talvez você já tenha pensado isso também.


Freud tem um texto de 1926, Inibição, sintoma e angústia, em que ele propõe uma ideia que eu acho muito relevante. Ele diz, em palavras simples, que a angústia funciona como um sinal. Um alarme. Ela aparece para avisar que alguma coisa dentro de nós está se sentindo ameaçada, em perigo.


E pensa comigo: ninguém culpa o alarme de incêndio por tocar. A gente vai ver o que está pegando fogo.


A ansiedade, muitas vezes, é isso. Não é um defeito seu. É o seu psiquismo dizendo: "do jeito que está, não dá mais". Pode ser a sobrecarga, pode ser um ambiente que adoece, pode ser uma dor antiga que encontrou no trabalho um lugar para aparecer. Mas é um recado. E recado a gente escuta, não silencia.


Um exemplo bem do dia a dia. Pensa naquela pessoa que passa o ano inteiro dizendo "sim" para tudo no trabalho. Fica até mais tarde, responde mensagem no domingo, cobre a falta do colega, não tira as férias inteiras. Ela é elogiada, é "a pessoa que resolve". Até o dia em que trava na frente do computador e não consegue abrir um e-mail. Ela não ficou fraca de repente. Ela estava forte demais, por tempo demais, sozinha.


Lá no O Evangelho Segundo o Espiritismo, o capítulo V se chama "Bem-aventurados os aflitos". Kardec fala ali do sentido das aflições e faz uma diferença que pode nos tocar: existe o bem sofrer e o mal sofrer. Sofrer bem não é fingir que não dói, nem se esconder, nem se castigar. É atravessar a dor com paciência, com humildade, buscando aprender com ela.


E paciência, eu acredito, começa com a gente mesmo.


Nesse mesmo capítulo, Kardec lembra que muitas das nossas aflições têm causa nesta vida, nas escolhas que fazemos e nos excessos que cometemos. Isso não é para trazer culpa. É para trazer responsabilidade amorosa. Se uma parte do que me adoece está no jeito como eu estou vivendo, então existe algo que eu posso mudar. E parar, às vezes, é o primeiro gesto dessa mudança.


Então, se um médico ou um psicólogo te recomendou um afastamento, eu queria que você olhasse para isso de outro jeito. Não é desistir. Não é fracassar. É um tempo de cuidado. É como a terra que fica em pousio, descansando, para depois voltar a dar fruto.


Tem um psicanalista que eu gosto muito, o Winnicott, que falava da importância de um ambiente que sustenta. Ele observava que a gente só consegue crescer, criar e se arriscar quando se sente minimamente amparado. Talvez o afastamento seja justamente isso: criar, por um tempo, um ambiente que te sustente, porque o de antes já não estava sustentando.


Mas deixa eu te dizer uma coisa: o afastamento não resolve tudo sozinho. Ficar em casa rolando a tela do celular, se culpando o dia inteiro, não é descanso. O tempo de parar precisa vir acompanhado. De tratamento, de escuta, de gente que te quer bem.


E para quem está do outro lado, o colega, o chefe, a família: quando alguém volta de um afastamento, não pergunte "e aí, já está bom?". Pergunte "como você está?". E escute a resposta.


Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: perceba os sinais do seu corpo. O sono que não vem, o coração acelerado no domingo à noite, a irritação com tudo. Anote, sem julgar. Esses sinais são o alarme de que Freud falava.


O segundo: conte para alguém. Uma pessoa só já basta. Um amigo, alguém da família, um profissional. A ansiedade cresce no silêncio e diminui quando encontra palavra.


E o terceiro: faça uma prece por você mesmo. Não para pedir que a dor suma de uma vez, mas para pedir paciência com o seu próprio tempo. A gente reza tanto pelos outros e esquece de se incluir.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Se o seu cansaço pudesse falar, o que ele estaria tentando te dizer?


Parar não apaga quem você é. Não apaga o que você já construiu. Às vezes, é exatamente na pausa que a gente se reencontra e volta mais inteiro, para o trabalho e para a vida.


E se você quiser uma companhia para esses dias de pausa e recomeço, te convido a baixar o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, à noite, se o pensamento não quiser desligar, fica com a gente na rádio no programa "Acalme sua Mente", às 23h. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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