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Amar quem pensa diferente: o que fazer com o coração depois da eleição

Por Dayele Assis · 2026-10-26

Amar quem pensa diferente: o que fazer com o coração depois da eleição

Como foi o almoço de domingo aí na sua casa?


Talvez tenha sido tranquilo. Ou talvez alguém tenha soltado um comentário sobre a eleição bem na hora da sobremesa, e o clima mudou na mesma hora. Um silêncio pesado, um garfo batendo no prato, alguém que levantou mais cedo dizendo que precisava ir embora.


Ontem foi o segundo turno. E hoje, segunda-feira, muita gente acordou com o resultado na cabeça e um nó no peito. Uns aliviados, outros frustrados. E quase todo mundo com aquela sensação de que o país, a família e até o grupo de mensagens ficaram divididos ao meio.


Você não está sozinho nisso. Uma reportagem publicada no início do mês, citando o Datafolha, contou que 69% dos brasileiros relatam sentir insegurança ou ansiedade ao pensar no cenário político e no futuro do país (Bem Paraná). É muita gente carregando o mesmo peso.


Então eu quero deixar claro desde já: esta conversa não é sobre quem ganhou ou quem perdeu. Não é sobre lado nenhum. É sobre o que fica entre nós depois que as urnas fecham.


Porque a eleição passa. A sua mãe, o seu irmão, aquele amigo de infância, o colega da mesa ao lado, esses continuam.


Deixa eu te contar uma coisa que eu percebo muito. A gente costuma ter mais paciência com um desconhecido na internet do que com quem mora debaixo do mesmo teto. Com o estranho, a gente respira e deixa pra lá. Com o tio que pensa diferente, parece que cada frase é uma ofensa pessoal. Já reparou nisso?


Freud percebeu isso há quase cem anos. Em O mal-estar na civilização, de 1930, ele fala de uma coisa que chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Em palavras simples: costumamos brigar com mais força justamente com quem está mais perto de nós. Vizinhos, parentes, gente parecida com a gente. Como se a pequena diferença ameaçasse a nossa ideia de quem somos.


E talvez seja isso que dói tanto. Quando alguém que eu amo pensa muito diferente de mim, uma parte de mim pergunta: "então ele não me conhece? Então a gente não é tão parecido assim?". A discussão parece ser sobre política, mas por baixo dela muitas vezes tem outra coisa. Medo de não ser compreendido. Medo de perder o lugar de pertencimento.


Talvez você já tenha sentido isso também.


Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o capítulo X se chama "Bem-aventurados os que são misericordiosos". Ali, Kardec fala de perdão, de indulgência e de não julgar. E traz aquela imagem do Evangelho que é tão atual: a gente enxerga o cisco no olho do outro e não percebe a trave no nosso.


Indulgência não é concordar com tudo. Não é fingir que não pensa nada nem engolir o que é injusto. É olhar para o outro lembrando que ele também é um Espírito em caminhada, com a história dele, os medos dele, as feridas dele. Assim como eu.


Um exemplo bem do dia a dia. Pensa naquele colega de trabalho que você acha intolerante porque votou diferente. Talvez ele esteja com medo de perder o emprego, talvez cuide sozinho de um pai doente, talvez tenha passado por alguma coisa que você nem imagina. Isso não muda o que ele pensa. Mas muda o jeito como você olha para ele. E, muitas vezes, muda o jeito como ele olha para você também.


Tem um psicanalista, Winnicott, que falava da "capacidade de se preocupar" com o outro. Ele observava que, quando a gente amadurece, consegue sentir raiva de alguém e, mesmo assim, continuar se importando com essa pessoa. Não precisa escolher entre um e outro. Dá para discordar e continuar amando.


E eu acho que essa é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta: sustentar o vínculo mesmo quando a opinião do outro nos incomoda.


Mas deixa eu te dizer com cuidado: amar quem pensa diferente não significa aceitar ser desrespeitado. Se uma conversa virou agressão, humilhação ou ameaça, colocar um limite também é uma forma de cuidado. Com você e com a relação. Às vezes o gesto mais amoroso é dizer: "eu te amo, mas sobre esse assunto a gente não vai conversar agora".


E talvez a pergunta mais importante não seja "como eu faço o outro mudar de ideia?". Talvez seja: "o que eu estou sentindo quando ele fala isso?". Porque o que a gente sente é nosso. E é por aí que dá para começar a cuidar.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: antes de responder aquela mensagem no grupo da família, espere. Respire fundo, conte até dez, deixe o celular de lado por alguns minutos. A pressa costuma escrever coisas de que a gente se arrepende depois.


O segundo: procure alguém com quem você brigou nesses últimos meses e converse sobre qualquer outra coisa. O time de futebol, uma receita, uma lembrança da infância. Às vezes a gente só precisa lembrar que o vínculo é muito maior do que o assunto que nos separou.


E o terceiro: faça uma prece por quem pensa diferente de você. Não para que ele mude, mas para que vocês dois encontrem paz. Pode parecer pouco, mas a prece também muda o jeito como a gente olha.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


O que você está disposto a cuidar hoje, mesmo sem concordar?


O país vai continuar com as suas diferenças, e talvez sempre seja assim. Mas a sua mesa de domingo pode voltar a ser um lugar de encontro. Não porque todo mundo pensa igual, e sim porque todo mundo se sente amado ali.


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Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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