Por Dayele Assis · 2026-10-23
Sexta-feira, fim de tarde. O celular vibra e é uma mensagem do seu chefe: "Segunda a gente precisa conversar." Só isso. Sem ponto de exclamação, sem carinha, sem assunto.
E pronto. O fim de semana inteiro vira uma sala de espera.
Você tenta assistir a um filme, mas a cabeça volta para a segunda-feira. Deita para dormir e começa a ensaiar respostas para perguntas que ninguém fez. Imagina a demissão, a conta que não vai fechar, a conversa difícil em casa. E na segunda, muitas vezes, o assunto era uma bobagem: uma mudança de horário, uma planilha nova.
Talvez você já tenha vivido algo assim também.
Hoje é Dia do Aviador. A data lembra o voo do 14-Bis, de Santos Dumont, em Paris, no dia 23 de outubro de 1906. Faz exatamente 120 anos. E eu fiquei pensando numa coisa: quem decide voar não é quem não sente medo. É quem sente e, mesmo assim, sobe.
Porque a vida é um pouco isso, né? Todo dia a gente decola sem saber exatamente como vai ser o pouso.
E é sobre esse medo do que ainda não aconteceu que eu queria conversar com você hoje.
Uma pesquisa da Ipsos divulgada este mês, feita em 32 países, mostrou que 64% das pessoas disseram que o estresse atrapalhou a rotina pelo menos uma vez no último ano. Entre quem tem menos de 35 anos, foram 75% (leia aqui). Ou seja: se você anda com o peito apertado pensando no amanhã, você está longe de ser a única pessoa.
Eu percebo que a ansiedade tem um jeito muito particular de nos roubar o presente. Ela nos coloca num lugar que ainda não existe e nos faz sofrer lá, antes da hora. A gente vive três, quatro vezes a mesma dor: quando imagina, quando espera, quando acontece. E, muitas vezes, a dor que a gente imaginou nem chega.
Mas deixa eu te dizer uma coisa importante: o medo não é seu inimigo.
Freud escreveu sobre isso em 1926, num livro chamado Inibição, sintoma e angústia. Ele percebeu que a angústia funciona como um sinal, um alarme que dispara quando a gente sente que vem algum perigo pela frente. Esse perigo pode ser real ou pode ser algo que a nossa mente imaginou, muitas vezes ligado a medos antigos, de quando éramos pequenos: o medo de ficar sozinho, de perder o amor de alguém, de não dar conta.
Ou seja, o alarme tem uma função. Ele quer nos proteger. O problema é quando ele começa a tocar o tempo todo, até quando não tem fumaça nenhuma. Aí, em vez de nos ajudar a agir, ele nos paralisa.
E é por isso que vale a pena perguntar, com carinho: de que eu tenho medo, de verdade? Às vezes, por trás do medo da reunião de segunda, mora um medo bem mais antigo, o de não ser suficiente.
Tem outro psicanalista de quem eu gosto muito, o Bion, que falava da importância de aprender a suportar o "não saber". Ele pegou emprestada uma ideia de um poeta inglês, John Keats, que chamava isso de "capacidade negativa": conseguir ficar na dúvida, na incerteza, sem sair correndo atrás de uma resposta qualquer só para aliviar o desconforto. Dito de um jeito simples: nem tudo precisa ser resolvido hoje. Algumas respostas só chegam com o tempo.
E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXV, Kardec traz aquela passagem conhecida em que Jesus nos convida a observar as aves do céu: elas não semeiam nem colhem, e mesmo assim são alimentadas. E termina dizendo que a cada dia basta o seu mal.
Só que repara bem: Kardec deixa claro que isso não é um convite à preguiça nem a cruzar os braços. O mesmo capítulo começa com a ideia de "Ajuda-te, e o Céu te ajudará". A confiança em Deus não substitui o nosso esforço. Ela tira o peso de achar que tudo depende só de nós. A gente faz a nossa parte, com dedicação, e entrega o resto.
Pensa no piloto de um avião. Ele não controla o vento, a chuva, a turbulência. Mas ele faz o que está ao alcance dele: confere os instrumentos, segue o plano de voo, mantém a calma quando o avião balança. E confia no que não depende dele.
A ansiedade quer que a gente controle o céu inteiro. A fé nos lembra que a nossa parte é cuidar bem do voo.
E olha que curioso: quando a gente vive o hoje com inteireza, o amanhã costuma chegar mais leve. Não porque os problemas sumiram, mas porque a gente chega a ele com mais força, e não esgotado de tanto sofrer por antecipação.
Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.
O primeiro: quando a cabeça disparar para o futuro, pare e pergunte a si mesmo "isso está acontecendo agora?". Se não está, respire devagar três vezes e volte para o que está na sua frente: a louça, o caminho, a pessoa que está falando com você.
O segundo: pegue um papel e divida em duas colunas. De um lado, o que depende de você. Do outro, o que não depende. Faça o que estiver na primeira coluna. A segunda, entregue numa prece.
E o terceiro: conte para alguém o medo que você está carregando. Dito em voz alta, ele quase sempre fica menor do que parecia dentro da cabeça.
E fica aqui uma pergunta para você levar com você:
Que parte do seu amanhã você pode entregar hoje, para voltar a viver o presente?
Você não precisa deixar de sentir medo para seguir em frente. Só precisa lembrar que não está voando sozinho. Deus está no comando de muito mais coisas do que a gente imagina.
E se o pensamento acelerar à noite, vem ouvir o "Acalme sua Mente", às 23h, na nossa rádio. E, durante o dia, o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, está te esperando com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Porque o cuidado continua todos os dias.
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