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Paz começa em casa: família que convive com as diferenças

Por Dayele Assis · 2026-10-24

Paz começa em casa: família que convive com as diferenças

Almoço de domingo. A comida está cheirosa, a mesa está cheia, todo mundo se esforçou para estar ali. Aí alguém solta: "Mas você ainda não arrumou outro emprego?" Ou: "No meu tempo, criança não fazia isso." Ou começa aquela conversa sobre política, futebol ou religião que todo mundo já sabe como termina.

E, de repente, o almoço que era para ser encontro vira campo de batalha. Ou, pior, vira silêncio: cada um engolindo o que queria dizer, olhando para o prato.

Talvez você tenha saído de um almoço assim pensando: por que é justamente com quem eu mais amo que é tão difícil conviver?

Hoje, 24 de outubro, é o Dia das Nações Unidas. Foi nessa data, em 1945, logo depois da Segunda Guerra, que a ONU passou a existir oficialmente, com a ideia de que povos muito diferentes pudessem conversar em vez de se destruir. E eu fiquei pensando que a paz entre os países é importante demais, mas a paz que mais mexe com a nossa vida quase sempre é outra: a da nossa sala, da nossa cozinha, da mesa do almoço.

Porque a paz do mundo começa em casa. E é sobre isso que eu queria conversar com você hoje.

Deixa eu começar com uma coisa que eu acredito muito: família não é um lugar sem conflito. Família é um lugar onde a gente aprende a atravessar o conflito sem desistir uns dos outros.

A gente cresce com uma imagem meio de comercial de margarina. Todo mundo sorrindo, concordando, se entendendo só com o olhar. E quando a nossa família não é assim, parece que falhamos. Mas eu percebo, todos os dias, que quase nenhuma família é assim. A diferença é que algumas conseguem conviver com as diferenças, e outras ficam presas nelas.

Freud escreveu um texto curtinho e muito bonito, em 1909, chamado O romance familiar dos neuróticos. Ele percebeu que, quando somos pequenos, nossos pais são os maiores, os mais fortes, os mais sábios do mundo. Aí a gente cresce e começa a ver as falhas deles. E é comum a criança fantasiar que veio de outra família, mais nobre, mais perfeita. Para Freud, crescer passa justamente por isso: largar os pais idealizados e conseguir conviver com os pais reais.

E olha que isso não vale só para a infância. Muitos de nós, adultos, ainda brigam com a família que gostariam de ter tido, em vez de conhecer a família que de fato têm. A mãe que a gente queria que fosse mais carinhosa. O irmão que a gente queria que pensasse igual. O pai que a gente queria que dissesse "eu te amo".

Só que, às vezes, aquele pai que nunca disse "eu te amo" é o mesmo que pergunta toda semana se você calibrou o pneu do carro. Repara: talvez seja esse o jeito que ele aprendeu a dizer a mesma coisa.

Winnicott, falava da "mãe suficientemente boa". Não a mãe perfeita, mas aquela que erra, acerta, se ajusta e continua ali. Eu gosto de pensar que existe também a família suficientemente boa: aquela que não é perfeita, mas onde ainda dá para voltar, pedir desculpas e tentar de novo.

E aqui entra uma coisa em que eu acredito. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XIV, Kardec fala da diferença entre a parentela corporal e a parentela espiritual. Os laços de sangue não criam, por si só, laços de alma. Muitas vezes, Espíritos que já se amam se reúnem na mesma família para continuar caminhando juntos. Mas, outras vezes, Espíritos que têm dificuldades entre si são colocados lado a lado justamente para aprender a se entender.

Ler isso, pode nos trazer calma. Porque aquele familiar com quem a gente vive se esbarrando deixa de ser um castigo e passa a ser uma oportunidade. Não é por acaso que estamos juntos. A convivência difícil pode ser a nossa sala de aula mais importante.

E isso também muda o jeito de olhar para o outro. Aquele irmão que irrita tanto também está aprendendo, também carrega as dores dele, também está fazendo o melhor que consegue com o que tem. Às vezes a gente acha que a nossa dificuldade em casa é enorme, até escutar o que um amigo está vivendo com os pais dele, e perceber que cada família carrega a sua cruz em silêncio.

Mas deixa eu te dizer uma coisa com muito cuidado: conviver com as diferenças não é aceitar tudo. Paz não é silêncio forçado, e amor não é se anular para evitar briga. Diferença de opinião é uma coisa; desrespeito, humilhação ou violência são outra. Nesses casos, cuidar de si e colocar limites também é um gesto de amor, e pedir ajuda é sinal de força.

Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.

O primeiro: na próxima conversa que começar a esquentar, antes de responder, se pergunte baixinho "eu quero ter razão ou quero ter paz?". Nem sempre a resposta vai ser paz, e tudo bem. Mas só de perguntar, você já escolhe em vez de reagir.

O segundo: pense na pessoa da sua família que é mais diferente de você. Encontre nela uma qualidade verdadeira, uma só, e diga isso a ela. Pode ser numa mensagem, num café, de passagem. Você vai se surpreender com o que um elogio sincero desarma.

E o terceiro: separe alguns minutos para uma prece por essa mesma pessoa, falando o nome dela. Se puder, reúna quem estiver em casa para o Evangelho no Lar, nem que seja uma leitura curta e uma conversa de dez minutos. A oração não muda o outro por mágica, mas muda o jeito como a gente olha para ele.

E fica aqui uma pergunta para você levar com você:

Em quem da sua família você ainda procura a pessoa que gostaria que existisse, em vez de conhecer quem ela realmente é?

A sua família não precisa ser perfeita para ser um lugar de crescimento. Ela só precisa de alguém disposto a dar o primeiro passo. E esse alguém pode ser você, hoje.

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Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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