Voltar para o blog

Amar sem se apagar: quando o relacionamento vira espelho

Por Dayele Assis · 2026-10-22

Amar sem se apagar: quando o relacionamento vira espelho

Você já reparou quanto tempo faz que você não escolhe o restaurante? Que não coloca a música que você gosta no carro? Que não diz "hoje eu não quero" sem já ir pedindo desculpa?


Parece coisa pequena. E é, uma de cada vez. Mas, somadas, essas pequenas renúncias às vezes contam uma história maior: a de alguém que, para manter o amor de pé, foi se apagando devagarinho.


Talvez você já tenha sentido isso também.


Hoje eu queria conversar com você sobre amar sem desaparecer. Sobre aquele relacionamento em que a gente se dedica tanto ao outro que, um dia, olha no espelho e pensa: "onde foi que eu fiquei?"


Deixa eu te contar uma cena que eu vejo muito. A pessoa chega cansada do trabalho e, antes de tirar o sapato, já está pensando no humor do outro. Ele vai chegar bem? Vai estar chateado? Se ele estiver mal, ela cancela o que tinha planejado, engole o que queria contar, guarda para depois a própria tristeza. E o depois nunca chega. No fim do dia, ela cuidou de tudo e de todos, menos de si.


E quando alguém pergunta "e você, como está?", ela até estranha a pergunta.


Eu percebo que muita gente aprendeu que amar é isso: se moldar. Ser fácil, não incomodar, concordar para não brigar. E, de fato, todo relacionamento pede alguma flexibilidade. Ninguém convive só com as próprias vontades. Mas existe uma diferença grande entre ceder por amor e se anular por medo de perder o amor.


Freud escreveu sobre isso há mais de cem anos, num texto de 1914 chamado Introdução ao narcisismo. Ele observou que, quando a gente se apaixona, uma parte enorme do nosso afeto vai para o outro, e às vezes sobra pouco para nós mesmos. O outro vira grande, perfeito, e a gente vai ficando pequeno. Ele também percebeu que muitas vezes amamos no outro aquilo que gostaríamos de ser. O outro vira uma espécie de espelho: a gente procura nele a confirmação de que tem valor.


E aí mora o perigo. Quando o meu valor depende do olhar do outro, qualquer distância, qualquer silêncio, qualquer cara fechada vira uma ameaça. E eu faço de tudo para não perder esse espelho, inclusive deixar de ser quem eu sou.


Tem um psicanalista que eu gosto muito, o Winnicott, que falava de um "falso self". Dito de um jeito simples: é aquela versão da gente que se adapta tanto ao que os outros esperam que o nosso jeito verdadeiro fica escondido, guardado num canto. Ele dizia que isso começa cedo, quando a criança sente que precisa agradar para ser amada. E muitos de nós levamos esse aprendizado para os relacionamentos da vida adulta, sem nem perceber.


Talvez você reconheça essa criança em você. Aquela que aprendeu que ser boazinha era o jeito de ser aceita.


E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o capítulo XI tem um título que a gente repete tanto que às vezes nem escuta mais: "Amar o próximo como a si mesmo". Repara bem na frase. Ela não diz "amar o próximo no lugar de si mesmo". Ela coloca o amor por nós como medida. O espiritismo nos ensina que somos Espíritos em aprendizado, e que cada um tem a sua própria caminhada. Ninguém pode viver a encarnação do outro por ele. E ninguém deveria abandonar a própria para caber na vida de alguém.


Amar a si mesmo, nesse sentido, não tem nada a ver com egoísmo. É reconhecer que você também é um filho de Deus, digno do mesmo respeito e do mesmo cuidado que você oferece a quem ama.


E olha que curioso: quem se apaga não ama melhor. Ama mais cansado. Porque um relacionamento precisa de duas pessoas inteiras, e não de uma pessoa e meia. Quando um dos dois some, o outro perde, sem saber, a chance de conhecer e amar quem você é de verdade.


Uma pesquisa da Ipsos divulgada este mês mostrou que, nos 32 países ouvidos, 61% das pessoas disseram ter vivido no último ano um estresse tão intenso que não conseguiram lidar com a situação (leia aqui). Eu fico pensando em quantas dessas pessoas carregaram esse peso em silêncio, dentro de casa, ao lado de alguém, sem conseguir dizer "eu não estou bem". Porque, quando a gente se acostuma a se apagar, até o sofrimento a gente esconde para não incomodar.


E tem uma coisa que eu acho importante dizer com todo cuidado. Às vezes não é só a gente que se apaga. Às vezes é o outro que apaga a gente: controla, humilha, isola, ameaça. Isso já não é ceder por amor, é violência, e você não precisa enfrentar sozinha. A Central de Atendimento à Mulher, no 180, atende de graça, e conversar com alguém de confiança ou com um profissional pode ser o primeiro passo.


Pensa naquela amiga querida. Se ela te contasse que deixou de ver as amigas, de fazer o curso que sonhava, de usar a roupa que gostava, tudo para não desagradar o namorado, você diria o quê? "Que lindo, quanto amor"? Acho que não. Você ia ficar preocupada. Ia lembrar a ela quem ela é. Então por que, com você, parece normal?


Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: escolha uma coisa pequena que é só sua e faça. A música no carro, o café do jeito que você gosta, meia hora de leitura. Não precisa pedir licença para existir.


O segundo: experimente dizer uma vontade em voz alta, com calma, sem pedir desculpa antes. "Eu queria ir naquele lugar." "Hoje eu preciso descansar." E observe o que acontece em você e na relação.


E o terceiro: antes de dormir, faça uma prece curta pedindo não só pelo outro, mas por você também. Agradeça por quem você é, inclusive pelas partes que você anda escondendo.


E fica aqui uma pergunta para você levar com você:


O que de você ficou guardado num canto para caber nesse amor?


Amar não deveria custar o seu nome, a sua voz, o seu jeito. O amor de verdade tem espaço para dois. E você merece ser um deles, inteira.


Se quiser companhia para ir se reencontrando aos pouquinhos, o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, está te esperando com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Abre num momento de pausa e deixa uma palavra te acolher. Porque o cuidado continua todos os dias.



Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


Outros posts