Por Dayele Assis · 2026-10-21
Pensa comigo numa cena bem comum. Uma mulher marca a consulta do filho, lembra a vacina do cachorro, leva a mãe ao cardiologista e ainda confere se o marido tomou o remédio. E o exame dela? Está atrasado há dois anos. "Depois eu vejo", ela diz. E o depois vai ficando para depois.
Talvez você conheça essa mulher. Talvez você seja ela.
Estamos na reta final do Outubro Rosa, o mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, que no Brasil virou lei em 2018 (Lei 13.733). E eu acho muito bonito ver os prédios iluminados de rosa, as campanhas, os laços. Mas hoje eu queria conversar com você sobre uma coisa que vem antes de qualquer exame: o jeito como você olha para o seu próprio corpo.
Deixa eu te perguntar, com carinho: quando foi a última vez que você se olhou no espelho sem procurar defeito?
Porque eu percebo que muita gente tem uma relação com o próprio corpo parecida com a de um chefe exigente com um funcionário. Só cobra. A barriga que não está como deveria, a ruga nova, o cabelo, o peso, a celulite. A gente tira dez fotos e apaga nove. Desvia do espelho do provador. Diz "nossa, como eu estou acabada" na frente das filhas, sem perceber que elas estão aprendendo, ali, a se olhar do mesmo jeito.
E aí acontece uma coisa curiosa. O corpo que a gente critica tanto é o mesmo corpo que a gente esquece de cuidar. Parece contraditório, mas não é. Quem não gosta do que vê costuma fugir do que vê. E fugir do espelho, muitas vezes, vira fugir também da consulta, do exame, do descanso, da comida feita com calma.
Freud percebeu isso há mais de cem anos. Num livro de 1923, chamado O Eu e o Id, ele escreveu que o nosso Eu é, antes de tudo, corporal. Dito de um jeito simples: a ideia que a gente tem de quem é nasce, primeiro, das sensações e da imagem do próprio corpo. Por isso, quando a relação com o corpo está ferida, a autoestima inteira sente. Não é vaidade. É a base de como a gente se percebe no mundo.
E de onde vem esse olhar tão duro? Tem um psicanalista que eu gosto muito, o Winnicott, que dizia que o primeiro espelho de um bebê é o rosto de quem cuida dele. A criança se vê no olhar da mãe. Se esse olhar é acolhedor, ela aprende que é bem-vinda do jeito que é. Ao longo da vida, outros espelhos vão chegando: a tia que comentava "você engordou, hein?", a revista, o colega de escola, hoje as redes sociais com seus filtros. E muitas de nós passamos a nos enxergar com os olhos de quem nos criticou.
Talvez você já tenha ouvido uma dessas frases. Talvez ainda escute, só que agora com a sua própria voz.
E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, tem uma mensagem chamada "Cuidar do corpo e do espírito". A ideia é de um equilíbrio muito bonito: o corpo é o instrumento que o Espírito recebeu para viver esta encarnação. Não é para ser idolatrado, como se fosse tudo o que somos. Mas também não é para ser maltratado, desprezado ou esquecido, como se não importasse. Cuidar do corpo é cuidar da ferramenta que nos permite aprender, amar e servir.
Eu gosto de pensar assim: o seu corpo não é um projeto a ser corrigido. É a casa que te carrega. Foi ele que te levou até aqui. Que carregou filhos no colo, ou sonhos, ou sacolas de supermercado ladeira acima. Que aguentou noites mal dormidas, abraços de despedida, dias inteiros de pé. Ele merece gratidão antes de merecer cobrança.
E isso muda o sentido do autocuidado. Autocuidado não é só skincare, unha feita e academia, embora tudo isso possa ser gostoso. É também marcar aquele exame que você vem adiando. É beber água. É dormir. É dizer não para o convite que vai te esgotar. É comer sentada, e não em pé na pia. É tratar o seu corpo como você trataria o corpo de alguém que você ama.
Pensa naquela amiga querida. Se ela te contasse que está há dois anos sem ir ao médico, você diria o quê? "Imagina, deixa para lá"? Duvido. Você ia insistir, oferecer companhia, talvez até marcar por ela. Então por que com você é diferente?
Muitas mulheres aprenderam que cuidar de si é egoísmo. Que primeiro vêm os outros, e com o que sobrar de tempo, se sobrar, vem ela. Mas quem se esquece de si um dia acaba sem forças para cuidar de quem ama. Se cuidar não é tirar nada de ninguém. É garantir que você continue inteira.
Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.
O primeiro: olhe no espelho por um minuto e, em vez de procurar defeito, agradeça a uma parte do seu corpo. As pernas que te levam, as mãos que trabalham, os olhos que te deixam ver quem você ama. Pode parecer bobo no começo. Faz assim mesmo.
O segundo: confira se a sua rotina de saúde está em dia. Se a consulta ou os exames estão atrasados, marque. E converse com o seu médico sobre o que é indicado para você, na sua idade e na sua história. Se puder, convide uma amiga para ir junto. Cuidado também é companhia.
E o terceiro: repare nas frases que você diz sobre o seu corpo, em voz alta ou só por dentro. Se você não diria aquilo para a sua filha, para a sua mãe ou para uma amiga, talvez não precise dizer para você também.
Antes de você seguir a sua quarta-feira, fica aqui uma pergunta para levar com você:
Se o seu corpo pudesse falar com você hoje, ele te agradeceria ou te pediria um pouco mais de carinho?
Você não precisa amar cada detalhe do seu corpo para tratá-lo com respeito. Basta começar a olhar para ele como quem olha para uma casa querida, que te abriga há tantos anos e ainda tem muita vida para viver com você.
E se quiser companhia nesse caminho de se olhar com mais carinho, o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, tem mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, à noite, você também pode desacelerar com a gente no programa "Acalme sua Mente", às 23h, na nossa rádio. Porque o cuidado continua todos os dias.
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