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Saudade que vira prece: preparando o coração para Finados

Por Dayele Assis · 2026-10-25

Saudade que vira prece: preparando o coração para Finados

Você ainda tem o contato dessa pessoa salvo no celular?


Talvez tenha. E talvez ele apareça justamente quando você nem está procurando: você vai buscar o nome de outra pessoa e, de repente, lá está ele, trazendo de volta uma lembrança boa. Talvez você até role a lista de vez em quando, pare no nome dela e fique ali, sem coragem de apagar. Ou guarde um áudio antigo que nunca mais ouviu, mas que sabe exatamente onde está. Ou tenha uma receita escrita à mão, com aquela letra que você reconheceria em qualquer lugar.


A saudade mora nessas coisas pequenas.


Tem um ditado popular que diz que "saudade é o preço que se paga pelos bons momentos vividos". Eu acho isso muito profundo. Porque é justamente aquilo que foi bom, o riso, o abraço, a conversa na cozinha, que hoje se transforma em saudade.


Daqui a uma semana, na segunda-feira, é Dia de Finados. E eu percebo que, para muita gente, essa data não chega só no dia 2. Ela vai chegando antes. Aparece no mercado, quando a gente passa pelas flores. Aparece no domingo, quando a mesa tem uma cadeira a menos. Aparece no silêncio de uma tarde qualquer, sem pedir licença.


Por isso eu quis conversar com você hoje, com calma, antes do feriado. Para a gente preparar o coração.


Deixa eu começar dizendo uma coisa que eu acredito: sentir saudade não é falta de fé. Às vezes a gente escuta, com toda a boa intenção, frases como "não chora, ele está num lugar melhor" ou "você precisa reagir". E a pessoa engole o choro, como se a dor fosse um defeito. Mas a saudade é só o outro nome do amor quando ele não tem mais onde encostar.


E tem outra coisa que eu vejo acontecer muito. A gente compara a própria dor com a dor dos outros. "Perdi minha avó, mas ela já tinha noventa anos. Minha amiga perdeu o irmão novo. Quem sou eu para sofrer tanto?" Só que luto não é competição. A sua saudade não precisa ser a maior do mundo para merecer cuidado.


Freud escreveu um texto em 1917 chamado Luto e melancolia que, para mim, continua sendo uma das coisas mais bonitas que a psicanálise já disse sobre perder alguém. Ele explica que o luto é um trabalho. Um trabalho lento, que a mente faz aos poucos, lembrança por lembrança. Cada objeto, cada data, cada lugar que a gente revisita vai sendo, devagar, entendido de outro jeito: aquela pessoa não está mais aqui como estava.


É por isso que dói tanto passar pela primeira vez em cada data sem ela. O primeiro aniversário, o primeiro Natal, o primeiro Finados. Não é que você esteja regredindo. É o trabalho do luto acontecendo.


E Freud faz uma diferença que eu acho muito importante. No luto, diz ele, é o mundo que fica pobre e vazio. Na melancolia, é o próprio Eu. Traduzindo para a nossa conversa: no luto, a gente sente falta do outro. Quando a dor começa a virar "eu não valho nada", "a culpa foi minha", "não tem mais sentido continuar", a pessoa já não está só perdendo alguém. Está se perdendo de si. E aí é hora de pedir ajuda, sem vergonha nenhuma.


Talvez você esteja se perguntando: e o que a fé tem a ver com tudo isso?


Para mim, tudo. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo V, tem um item chamado "Perda de pessoas amadas. Mortes prematuras". Kardec nos lembra ali que a morte não é o fim, e sim uma passagem. Quem partiu continua vivo, continua sendo quem era, continua amando. E nos convida a olhar a separação como temporária. Em O Céu e o Inferno, ele vai além e reúne relatos de Espíritos contando como foi a passagem, justamente para mostrar que a vida segue.


Isso não apaga a saudade. A gente continua sentindo falta do abraço, da voz, do jeito de rir. Mas muda o lugar de onde a saudade nasce. Ela deixa de ser desespero e pode virar espera, gratidão, laço.


E chorar também faz parte do processo do luto. Isso é normal. Às vezes, por conta da crença religiosa, a gente acha que chorar é errado, que atrapalha quem partiu. Mas o choro de saudade, que vem do amor, nunca atrapalha quem amamos. O choro de revolta, esse sim, pode trazer perturbação não só para aqueles que partiram, como também para nós mesmos.


E aqui entra uma coisa que nos consola, a Doutrina Espírita ensina que o pensamento e a prece chegam até quem partiu. Em O Livro dos Espíritos, quando fala da comemoração dos mortos, Kardec explica que não é o túmulo nem a cerimônia que nos aproxima de quem amamos, e sim a lembrança sincera. Você não precisa estar no cemitério para estar perto. Pode ser na cozinha, fazendo aquela receita. Pode ser no carro, ouvindo a música que ela gostava.


Repara como isso conversa com o que Freud dizia. O trabalho do luto não é esquecer. É encontrar um novo lugar para quem partiu dentro da gente. E a prece, para mim, é exatamente isso: um lugar onde o amor pode continuar indo e vindo.


Mas deixa eu te dizer com cuidado: também não precisa forçar paz. Se você ainda sente raiva, se ficou alguma conversa pela metade, se tem culpa misturada com a saudade, tudo isso faz parte. A prece também acolhe o que é difícil. Você pode rezar chorando. Pode rezar dizendo "eu ainda não entendi". Deus não pede oração bonita, pede oração sincera.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana antes de Finados.


O primeiro: escreva uma carta para quem partiu. Não precisa mostrar para ninguém. Conte como você está, o que mudou, o que você gostaria de ter dito. Colocar a saudade em palavras é uma das formas mais antigas de cuidar dela.


O segundo: escolha uma lembrança boa e faça algo com ela. Cozinhe aquele prato, ouça aquela música, visite aquele lugar. Não para sofrer mais, mas para honrar o que essa pessoa deixou em você.


E o terceiro: reserve um momento de silêncio, todos os dias, para uma prece com o nome dela. Pode ser curta. Um "obrigada por tudo, siga em paz, eu te amo" já basta. E, se o coração pedir, mande também uma mensagem para alguém que está vivendo um luto recente. Às vezes, quem mais precisa de companhia nesses dias é quem não tem coragem de pedir.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Se a sua saudade pudesse virar uma prece, o que ela diria hoje para quem você ama?


A saudade não vai embora, e talvez nem precise ir. Mas ela pode ficar mais leve, mais mansa, mais cheia de amor do que de dor. Quem amamos continua conosco de outro jeito. E o amor, esse, ninguém enterra.


E, se quiser companhia nesses dias de saudade, o nosso aplicativo está te esperando em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E à noite, às 23h, o programa "Acalme sua Mente", na nossa rádio, também pode ser um colo antes de dormir. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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