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Esperança quando tudo parece impossível

Por Dayele Assis · 2026-10-28

Esperança quando tudo parece impossível

Você já sentiu que alguma situação da sua vida simplesmente não tem saída?


Aquela dívida que só cresce. O exame que não fica pronto nunca. O filho que se fechou no quarto e não conversa mais. O casamento que virou silêncio. A gente tenta de um jeito, tenta de outro, e chega uma hora em que a sensação é de uma parede na nossa frente. Nenhuma porta. Nenhuma fresta.


Se você está aí agora, eu queria sentar um pouquinho do seu lado hoje.


Hoje, 28 de outubro, é dia de São Judas Tadeu, que muita gente no Brasil conhece como o santo das causas impossíveis. Quem passa perto de uma igreja dedicada a ele vê filas de pessoas com fitas, velas, flores, pedidos escritos à mão. Eu respeito muito essa cena. Porque, seja qual for a religião de cada um, ela mostra uma coisa profundamente humana: quando tudo parece impossível, a gente procura onde se segurar.


E é sobre isso que eu quero conversar com você. Sobre esperança.


Freud percebeu uma coisa há quase cem anos, em textos como O futuro de uma ilusão, de 1927. Ele dizia que o ser humano começa a vida num estado de desamparo. O bebê não consegue nada sozinho: não se alimenta, não se aquece, não se acalma. Depende inteiramente de alguém que chegue. E essa marca, segundo ele, não desaparece quando a gente cresce. Ela fica guardada lá dentro.


Talvez seja por isso que certas situações mexem tanto com a gente. Quando a vida aperta de verdade, não é só o problema de hoje que dói. É como se aquele bebê antigo acordasse dentro de nós e perguntasse, assustado: "será que alguém vai vir?".


Talvez você já tenha sentido isso também.


E tem uma coisa curiosa que eu percebo muito. Quando o problema é do outro, a gente enxerga saída com uma facilidade enorme. A amiga conta que está sufocada no trabalho, e logo vem o conselho: "conversa com a sua chefe", "procura outra vaga", "isso vai passar". Mas quando é com a gente, um problema do mesmo tamanho vira uma montanha.


E o contrário também acontece. Às vezes a gente passa a semana inteira achando que o nosso problema no trabalho é o fim do mundo. Aí um amigo liga contando que o pai foi internado, que a casa está de cabeça para baixo. E, de repente, aquele relatório atrasado parece pequeno. Não porque a nossa dor deixou de existir. Mas porque a gente lembra que o "impossível" muda de tamanho dependendo de onde a gente olha.


O desespero estreita o olhar. A esperança alarga.


No O Evangelho Segundo o Espiritismo, o capítulo XIX, chamado "A fé transporta montanhas". Kardec explica ali que essas montanhas não são as de pedra. São as dificuldades, as resistências, a má vontade que a gente encontra pelo caminho, inclusive a nossa. E a fé que move essas montanhas não é a fé que espera um milagre de braços cruzados. É a fé que dá confiança, coragem e perseverança para continuar.


E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. Kardec fala de uma fé raciocinada. Ele escreve, nesse mesmo capítulo, que a fé verdadeiramente inabalável é aquela que consegue olhar a razão de frente. Ou seja: não é uma fé que pede para você fechar os olhos para a realidade. É uma fé que olha para a realidade inteira, com tudo o que ela tem de difícil, e ainda assim encontra um motivo para dar o próximo passo.


Porque esperança não é negar o problema. É não deixar que o problema seja a única coisa que você enxerga.


Winnicott, psicanalista, que falava de um ambiente "suficientemente bom". Ele observava que o bebê não precisa de uma mãe perfeita. Precisa de alguém que esteja ali com constância, que chegue quando ele chora, que segure. E é dessa experiência repetida, de ser amparado, que nasce dentro de nós a confiança de que o mundo pode ser um lugar habitável.


Eu acho que a esperança nasce exatamente aí. Não de uma certeza de que tudo vai dar certo, mas da lembrança, lá no fundo, de que um dia alguém veio. De que a gente não foi deixado sozinho.


E é por isso que, quando a gente está diante do impossível, a primeira coisa a fazer muitas vezes não é resolver. É procurar amparo. Uma pessoa que escute. Um grupo. Uma prece. Um profissional. Alguém que faça, por um tempo, o papel desse ambiente que sustenta, até a gente conseguir ficar de pé de novo.


A Doutrina Espírita nos lembra que nunca estamos completamente sós. Que há uma Providência que não abandona ninguém e espíritos amigos que nos inspiram, muitas vezes, através das pessoas que aparecem no nosso caminho. Aquele telefonema na hora certa. Aquela conversa inesperada. Aquela frase que alguém disse sem saber o quanto você precisava ouvir.


Pensa naquela plantinha que nasce na fresta de um muro de pedra. Ninguém diria que ali era lugar de nascer alguma coisa. Mas ela encontrou um pouco de terra, um pouco de luz, e foi.


Se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: divida a montanha. Em vez de olhar para o problema inteiro, escolha um único passo possível para hoje. Uma ligação, um e-mail, marcar uma consulta, pedir uma informação. Montanha se atravessa a pé, um passo de cada vez.


O segundo: deixe alguém entrar. Conte para uma pessoa de confiança o que está pesando. O desamparo cresce no isolamento e diminui quando encontra um outro que fica.


E o terceiro: mude um pouco a sua prece. Além de pedir que a situação se resolva, pergunte: "o que eu posso fazer hoje?". A fé raciocinada não tira a gente do caminho. Ela caminha junto.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Qual é a pequena fresta de luz que já existe dentro da situação que você chama de impossível?


Pode ser pequena. Pode ser só uma pessoa, uma ideia, um dia um pouquinho menos pesado. Mas fresta é por onde a luz entra. E se, neste momento, a sensação de não ter saída estiver pesada demais para carregar, por favor, não fique sozinho com ela: o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.


E se você quiser uma companhia diária para cultivar essa esperança, te convido a conhecer o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Tem também o programa Conexão Vivenciar, com Ronaldo da Silva, diariamente 5:30h. Um pouquinho de luz por dia, para lembrar que você não caminha só. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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