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Homem também sente: abrindo o Novembro Azul pela saúde emocional

Por Dayele Assis · 2026-10-30

Homem também sente: abrindo o Novembro Azul pela saúde emocional

Você conhece algum homem que chega em casa, estaciona o carro na garagem e fica ali dentro, parado, uns dez minutos antes de entrar?


Motor desligado. Celular na mão, mas sem olhar nada. Só respirando.


Depois ele abre a porta, dá um beijo em todo mundo, pergunta do jantar e, quando alguém quer saber como foi o dia, responde o de sempre: “tudo tranquilo”.


Talvez esse homem seja o seu pai, o seu marido, o seu irmão, o seu filho. Talvez seja você.


Amanhã começa o Novembro Azul, o mês de lembrar os homens de cuidarem da saúde. A gente costuma falar muito de exame, de prevenção, de ir ao médico, e tudo isso é muito importante. Mas eu queria abrir esse mês por uma porta que quase sempre fica fechada: a do coração. Porque homem também sente.


Parece óbvio, não parece? Mas repara como a gente ainda vive como se não fosse.


Uma pesquisa da Ipsos, publicada neste mês de outubro, mostrou que 68% das mulheres brasileiras apontam a saúde mental como um dos principais problemas de saúde do país. Entre os homens, são 47%. Uma diferença de 21 pontos (Ipsos). E eu fico pensando: será que os homens sofrem menos? Ou será que aprenderam a não enxergar, ou a não dizer?


Eu acredito mais na segunda resposta.


Muitos meninos crescem ouvindo frases que parecem pequenas, mas que ficam. “Engole o choro.” “Homem não chora.” “Seja forte pela sua mãe.” “Isso é frescura.” Ninguém diz isso por maldade. Geralmente é o que aquele pai, aquele avô, também ouviu. Mas o recado que chega lá dentro é outro: “o que você sente não cabe aqui”.


E o que não cabe em palavras não some. Ele procura outro caminho.


Às vezes vira irritação, aquela impaciência com tudo e com todos. Às vezes vira excesso de trabalho, como se parar fosse perigoso. Às vezes vira bebida, insônia, dor nas costas, pressão alta. E muita gente em volta só enxerga um homem “difícil”, quando, na verdade, está diante de um homem triste que não aprendeu a dizer que está triste.


Talvez você já tenha convivido com alguém assim.


Pensa numa cena bem comum. A empresa anuncia cortes, e ele passa semanas com medo de ser o próximo. Não conta para ninguém em casa, “para não preocupar”. Dorme mal, fica calado no almoço de domingo, briga com o filho por causa de um copo fora do lugar. A família acha que o problema é o copo. O problema nunca foi o copo.


O psicanalista Winnicott, que escreveu sobre algo que ele chamou de elementos “masculino” e “feminino” da personalidade, no livro O brincar e a realidade. Ele não estava falando de homem e mulher. Estava falando de duas formas de existir que moram em todos nós. Uma é a do fazer: agir, resolver, conquistar, dar conta. A outra é a do ser: simplesmente existir, sentir, receber, estar presente sem precisar provar nada.


E o mais bonito é que, para ele, o ser vem antes do fazer. A gente precisa primeiro se sentir existindo, inteiro, para só depois conseguir fazer coisas com sentido.


Agora olha como a gente educa os meninos. Quase tudo é fazer. Prover, aguentar, resolver, não falhar. Sobra pouco espaço para só ser. Para sentar do lado de alguém e dizer “eu não sei o que fazer” e, mesmo assim, ser acolhido.


Em O Livro dos Espíritos, nas questões 200 a 202, Kardec pergunta aos Espíritos se eles têm sexo. E a resposta é que não, não como a gente entende aqui, porque o sexo pertence ao corpo físico. O Espírito pode reencarnar como homem numa existência e como mulher em outra, justamente para aprender o que cada experiência tem a ensinar.


Repara no que isso significa. A sensibilidade, a ternura, o choro, o medo, a vontade de colo não são “coisa de mulher”. São coisas da alma. E alma não tem gênero.


O homem que se emociona não está sendo menos homem. Está sendo mais inteiro.


Eu percebo que, quando um homem finalmente consegue falar, quase sempre vem junto um alívio enorme. Não porque o problema desapareceu, mas porque ele deixou de carregar sozinho. E isso vale para quem está do outro lado também. Se você convive com um homem que anda calado demais, talvez ele não precise de uma cobrança. Talvez precise de um convite.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana, abrindo o Novembro Azul.


O primeiro: troque o “tudo bem?” automático por uma pergunta de verdade. “Como você está se sentindo com tudo isso?” E depois, mais importante ainda, escute sem tentar consertar.


O segundo: se você é homem, dê nome a uma coisa que está sentindo. Pode ser só para você, num papel, no bloco de notas do celular. Cansaço, medo, saudade, raiva. Nomear não é fraqueza. É o começo do cuidado.


E o terceiro: aproveite o mês para marcar aquela consulta adiada, seja com o médico, seja com um psicólogo ou psicanalista. Cuidar do corpo e cuidar da mente fazem parte do mesmo gesto de amor por si.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


O que o homem da sua vida, ou o homem que você é, está carregando calado há tempo demais?


Talvez a resposta não venha hoje. Tudo bem. Às vezes o primeiro passo é só abrir a porta do carro, entrar em casa e, em vez de “tudo tranquilo”, dizer a verdade. A força de verdade nunca esteve em aguentar tudo sozinho. Está em deixar alguém chegar perto.


E se você quiser uma companhia diária nessa caminhada, te convido a conhecer o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Pode ser um bom presente para aquele homem que você ama, também. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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