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Ansiedade: o medo do que ainda não aconteceu

Por Dayele Assis · 2026-11-04

Ansiedade: o medo do que ainda não aconteceu

Sabe aquela hora da madrugada em que a casa está em silêncio, mas a cabeça não para?


Você deita cansado, apaga a luz e, de repente, começa um filme. E se eu perder o emprego? E se aquele exame der alguma coisa? E se meu filho não estiver bem na escola? E se eu não der conta? Quando você vê, já são duas da manhã, o coração está acelerado e nada daquilo aconteceu. Nada. Mas o corpo está reagindo como se tudo já estivesse acontecendo.


Se isso te soa familiar, eu quero começar te dizendo uma coisa: você não é fraco nem exagerado. Você está ansioso. E a ansiedade é uma das coisas mais humanas que existem.


E você está longe de ser o único. A Ipsos divulgou em outubro o Monitor da Saúde 2026, e a saúde mental aparece em primeiro lugar entre os maiores problemas de saúde do país, citada por 58% dos brasileiros. Entre as mulheres, esse número chega a 68% (leia a pesquisa aqui). Eu olho para esse dado e penso em quanta gente está deitando à noite com o mesmo filme passando na cabeça.


Deixa eu te contar como eu enxergo a ansiedade. Para mim, ela é o medo do que ainda não aconteceu. A tristeza costuma olhar para trás, para o que a gente perdeu. A ansiedade olha para a frente, para o que a gente imagina que pode perder. Ela mora no futuro. E o futuro que a ansiedade desenha quase sempre é o pior possível.


Pensa numa cena bem comum. Seu chefe manda uma mensagem às seis da tarde: “Amanhã cedo quero falar com você.” Só isso. Pronto. A noite inteira vira um tribunal. Você revisa tudo o que fez na semana, imagina a demissão, ensaia respostas, pensa em como vai pagar as contas. No dia seguinte, ele só queria saber se você podia assumir um projeto novo. Você sofreu uma noite inteira por uma coisa que nunca existiu.


Talvez você já tenha vivido algo assim também.


E repara numa coisa curiosa. Quando o problema é de um amigo, a gente enxerga com clareza. A amiga conta que está desesperada porque a filha não respondeu a mensagem, e a gente diz, tranquila: “Calma, ela deve estar sem bateria.” Mas, quando é com a gente, a mesma situação vira uma tragédia. De fora, o medo parece pequeno. De dentro, ele ocupa a casa toda.


Agora, eu quero te trazer uma ideia que mudou muito o meu jeito de olhar para isso.


Freud, num texto de 1926 chamado Inibições, sintoma e angústia, percebeu que a angústia funciona como um sinal. É um alarme que a nossa mente dispara quando sente que alguma coisa pode ameaçar o nosso equilíbrio. Ou seja, a ansiedade não é uma inimiga que veio do nada para estragar a sua vida. Ela está tentando te avisar de alguma coisa.


O que acontece é que, muitas vezes, o alarme toca alto demais, ou toca pela coisa errada. E a nossa reação mais comum é tentar calar o barulho a qualquer custo: rolar o celular, comer sem fome, trabalhar mais, não pensar. Só que um alarme que a gente desliga sem olhar o que o disparou costuma voltar a tocar.


Por isso eu acredito tanto no valor de escutar. Em vez de perguntar só “como eu faço isso parar?”, vale perguntar também “o que esse medo está querendo me dizer?”. Às vezes, por trás da ansiedade com o trabalho, existe um cansaço que a gente não se permite sentir. Por trás do medo de perder alguém, existe um amor enorme que ainda não encontrou palavras. Quando a gente escuta, o alarme vai baixando, porque finalmente foi ouvido.


E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito.


No Evangelho de Mateus, Jesus fala de um jeito tão simples que a gente quase passa batido. Ele pede para a gente olhar as aves do céu. Elas não semeiam, não colhem, não guardam em celeiros, e mesmo assim não ficam sem alimento. E logo depois ele diz para a gente não se inquietar com o dia de amanhã, porque cada dia já traz a sua própria preocupação.


Kardec comenta esse ensinamento em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXV, “Buscai e achareis”. E o que eu acho bonito é que ele não lê isso como um convite para cruzar os braços e esperar que tudo caia do céu. O próprio título do capítulo já diz: é preciso buscar. A ideia é fazer a nossa parte com dedicação e, depois, confiar. Trabalhar no hoje e entregar o amanhã à Providência, sem carregar nas costas um peso que ainda nem chegou.


Eu penso nisso como uma divisão de tarefas. O hoje é meu. O amanhã, eu preparo como posso, mas não controlo. E está tudo bem não controlar.


Quando a gente une essas duas coisas, a escuta que a psicanálise ensina e a confiança que a fé oferece, acontece algo muito bonito. A gente para de brigar com a ansiedade e começa a cuidar dela. Escuta o aviso, faz o que está ao alcance e solta o resto.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: quando a cabeça disparar, pegue um papel e escreva o que está te preocupando. Depois, ao lado de cada coisa, anote se aquilo está acontecendo agora ou se é algo que você imagina que pode acontecer. Você vai se surpreender com quantas coisas pertencem só ao futuro.


O segundo: escolha uma pequena ação concreta para hoje, uma só, sobre aquilo que mais te preocupa. Mandar a mensagem, marcar a consulta, organizar a conta. A ansiedade se alimenta da sensação de impotência, e um passo pequeno já devolve um pouco de chão debaixo dos pés.


E o terceiro: antes de dormir, faça uma prece curta, do seu jeito, e entregue o que não depende de você. Pode ser só “eu fiz o que pude hoje, o resto eu confio”. Respire devagar algumas vezes. O amanhã chega no tempo dele.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


O que a sua ansiedade está tentando te dizer, que você ainda não parou para escutar?


E se a ansiedade estiver tão forte a ponto de atrapalhar o seu sono, o seu trabalho ou a sua alegria, procure ajuda profissional. Cuidar da mente com quem entende do assunto não é sinal de fraqueza. É um gesto de amor por você.


Que você consiga, hoje, viver um dia de cada vez. Só o de hoje já basta.


E se quiser uma companhia para atravessar os dias com mais calma, te convido a conhecer o nosso aplicativo em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, naquelas noites em que a cabeça não desliga, liga a rádio e fica com a gente no programa Acalme sua Mente, às 23h. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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