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Rir também é cuidar: o humor como abrigo

Por Dayele Assis · 2026-11-06

Rir também é cuidar: o humor como abrigo

Você lembra da última vez que riu até a barriga doer?


Talvez tenha sido numa roda de família, com aquele tio que conta a mesma história todo Natal e, ainda assim, todo mundo ri. Talvez tenha sido com uma amiga, por uma bobagem que nem dá para explicar depois. Ou talvez você precise pensar um pouco para lembrar. Se for o seu caso, fica tranquilo: essa conversa de hoje é para você também.


Hoje, 6 de novembro, é o Dia Nacional do Riso. Pode parecer uma data leve para um blog que fala de alma, de luto, de ansiedade. Mas eu acredito que rir também é cuidar. E quero te explicar por quê.


Repara como, na correria, o riso vai ficando para depois. A gente fica sério com o trabalho, sério com as contas, sério com os filhos, sério até com o descanso. E, quando percebe, passou a semana inteira sem dar uma gargalhada. Não porque não houvesse motivo, mas porque a cabeça estava ocupada com outras coisas e não conseguia enxergar.


Pensa numa cena bem comum. Uma família passa um dia difícil: o carro quebrou, o almoço queimou, a criança derrubou suco no sofá. No fim da tarde, todo mundo cansado, alguém olha para a panela preta em cima do fogão e solta: "Pelo menos hoje ninguém vai reclamar que a comida está sem gosto." E a casa inteira cai na risada. O carro continua quebrado. O sofá continua manchado. Mas o peso do dia mudou de lugar.


O que aconteceu ali?


Freud, psicanalista, escreveu sobre isso em dois momentos. Primeiro, em 1905, num livro sobre os chistes, que é o nome que ele dava para as piadas e tiradas espirituosas. Depois, em 1927, num texto curto chamado O humor. Ali ele conta a história de um homem condenado que, sendo levado à forca numa segunda-feira, comenta que a semana estava começando bem. Parece só uma piada de humor ácido. Mas Freud viu nela uma coisa séria.


Para ele, o humor é uma forma de o nosso eu não se deixar esmagar pelo sofrimento. A realidade continua dura, ninguém está negando isso. Mas, por um instante, a pessoa se coloca um pouco acima da situação e diz, por dentro: "Isso não vai me derrubar por inteiro." Freud comparava esse movimento ao de um pai ou de uma mãe que olha para o filho assustado e diz, com carinho: "Olha, isso que parece tão grande é menor do que você imagina."


E aqui tem um detalhe importante. Humor não é o mesmo que fingir que está tudo bem. Tem gente que ri de tudo para não sentir nada, que faz piada justamente para ninguém chegar perto da sua dor. Esse riso protege, mas também afasta. O humor de que Freud fala é outro: ele reconhece a dor e, mesmo assim, encontra um respiro dentro dela. Um é uma porta fechada. O outro é uma janela aberta.


Talvez você já tenha percebido essa diferença em você mesmo. Tem dias em que a piada vem para esconder. Tem dias em que ela vem para aliviar.


E é aí que entra uma ideia em que eu acredito.


Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo V, que fala dos aflitos, há uma mensagem chamada "A melancolia". O Espírito que a assina fala daquela tristeza vaga que às vezes toma conta da gente sem motivo claro, e convida a resistir a ela, porque ela enfraquece a vontade e tira a força de que precisamos para atravessar as provas. A mensagem lembra que a vida na Terra é passagem, que a alma tem um futuro, e que essa certeza pode nos devolver a coragem.


Quando leio isso, penso que a alegria não é uma recompensa para quando os problemas acabarem. Ela é uma força para atravessá-los. Kardec, no capítulo XIX do mesmo livro, fala da fé raciocinada, aquela que não é cega e que nos ajuda a olhar a vida com mais confiança. E eu sinto que um coração confiante tem mais facilidade para sorrir. Não o sorriso forçado de quem nega a dor, mas o de quem sabe que a dor não é o fim da história.


Tem também uma coisa sobre o riso que vale lembrar: ele é contagioso, e ele aproxima. Quando a gente ri junto, alguma coisa se acerta entre as pessoas. Uma reunião tensa no trabalho às vezes se desfaz numa risada coletiva. Um casal que brigou faz as pazes quando um dos dois, sem querer, solta uma bobagem. O riso compartilhado diz, sem palavras: "Estamos do mesmo lado."


E repara como uma coisa conversa com a outra. A psicanálise nos mostra que o humor é um jeito de o eu se proteger sem fugir da realidade. A Doutrina Espírita nos lembra que a alegria sustenta a alma nas provas e que a confiança no futuro nos dá ânimo. Os dois caminhos chegam ao mesmo lugar: rir com leveza, sem negar o que dói, também é uma forma de cuidar de si.


Agora, eu sei que tem momentos em que não dá para rir. No luto recente, numa crise, numa fase em que tudo pesa. E está tudo bem. Ninguém precisa se obrigar a ser alegre. O riso não se força: ele volta, aos poucos, quando encontra espaço. Às vezes começa com um meio sorriso diante de uma lembrança boa de quem partiu. Isso também é cuidado.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.


O primeiro: procure alguém que te faz rir. Pode ser uma ligação para aquela amiga engraçada, um áudio para o irmão, um café com o colega que sempre tem uma história. Dê a você mesmo a chance de rir acompanhado.


O segundo: quando algo der errado nos próximos dias, antes de se irritar, tente olhar a cena de fora por alguns segundos. Pergunte a si mesmo: daqui a um mês, isso vai virar uma história engraçada? Quase sempre a resposta é sim. E dá para começar a rir um pouco antes.


E o terceiro: à noite, antes de dormir, lembre de um momento do dia em que você sorriu, por menor que tenha sido. Se fizer sentido para você, faça uma prece de gratidão por ele. A gente costuma repassar o que deu errado. Vale repassar também o que trouxe leveza.


Fica aqui uma pergunta para você levar com você:


Quando foi que você deixou de rir das pequenas coisas, e o que precisaria para voltar?


Você não precisa ser engraçado nem ter motivo para festa. Basta deixar uma janela aberta para a leveza entrar. A alma agradece quando a gente se permite respirar sorrindo.


E se quiser companhia para encontrar essa leveza no dia a dia, o nosso aplicativo está te esperando em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E, se a noite pesar, a rádio também está aqui, com o programa "Acalme sua Mente", às 23h. Porque o cuidado continua todos os dias.




Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


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