Por Dayele Assis · 2026-11-07
Sabe aquela hora em que você liga para alguém só para contar uma coisa, e a pessoa, do outro lado, fica em silêncio te ouvindo? Ela não resolve nada. Não dá conselho. Só diz "hum", "entendi", "e aí?". E, quando você desliga, alguma coisa ficou mais leve.
Talvez você já tenha vivido isso. Talvez esteja precisando viver isso agora.
Hoje, 7 de novembro, é o Dia do Radialista. E eu não poderia deixar essa data passar sem conversar com você sobre uma coisa que a rádio me ensinou: a voz acompanha. Tem gente que liga o rádio de madrugada não para ouvir uma notícia, mas para não se sentir sozinha na cozinha, no carro, na cama em que o sono não vem. Uma voz do outro lado diz, sem dizer: "tem alguém aqui com você".
Mas hoje eu quero ir um pouco além da voz que fala. Quero falar da escuta. Do que acontece com a gente quando é escutado de verdade.
Repara como isso anda raro. A gente conversa olhando o celular. Responde áudio em velocidade dupla. Alguém começa a contar um problema e, antes de terminar a frase, já ouviu três soluções e uma história parecida que aconteceu com a outra pessoa. Não é por maldade. É pressa. É vontade de ajudar. Mas, no fim, a pessoa sai da conversa com a sensação de que não foi ouvida.
Pensa numa cena bem comum. Você chega em casa depois de um dia difícil no trabalho e começa a contar que o chefe te cobrou na frente de todo mundo. Antes de você terminar, alguém da família diz: "Ah, mas isso não é nada. Problema mesmo é o que a sua tia está passando com o marido doente." Pode até ser verdade. O nosso problema no trabalho parece pequeno perto do que outra pessoa está vivendo em casa. Mas, naquele momento, você não queria uma comparação. Queria só alguém que dissesse: "Poxa, deve ter sido chato. Me conta."
Talvez você já tenha estado dos dois lados dessa cena. Eu já.
A psicanálise nasceu, de certa forma, de uma descoberta assim. No fim do século XIX, em Viena, o médico Josef Breuer atendia uma jovem que entrou para a história com o nome de Anna O. Ela tinha sintomas que ninguém conseguia explicar. E foi ela quem percebeu que, quando falava livremente sobre o que sentia e lembrava, os sintomas aliviavam. Ela mesma deu um nome a isso: talking cure, a cura pela fala. Breuer e Freud contaram essa história no livro Estudos sobre a histeria, de 1895.
E aqui tem um detalhe importante. Quem encontrou o caminho não foi o médico. Foi a paciente. O mérito do médico foi parar e ouvir. Freud levou isso adiante e construiu um jeito de cuidar baseado nessa ideia: deixar a pessoa falar o que vier, sem censura, e escutar com atenção, sem pressa de julgar. Ele percebeu que, quando uma dor encontra palavras, e essas palavras encontram alguém que as recebe, ela começa a mudar de lugar.
Bion, outro psicanalista, pensava em algo parecido quando falava da mãe que acolhe o choro do bebê. O bebê sente um desconforto e não sabe o que é. A mãe recebe aquilo, aguenta, dá um nome ("você está com fome", "você está com sono") e devolve para o bebê de um jeito que ele consegue suportar. A gente cresce, mas continua precisando disso. Às vezes, tudo o que uma pessoa precisa é de alguém que segure, por um tempo, aquilo que ela ainda não consegue segurar sozinha.
E é aí que entra uma ideia em que eu acredito.
Em O Livro dos Espíritos, na parte que trata da Lei de adoração, os Espíritos falam da prece. E o que eles destacam não são as palavras bonitas ou decoradas, mas a sinceridade do pensamento. O que vale é a intenção, o que vem do coração. Quando eu leio isso, penso que a prece também é uma forma de ser escutado. Quantas vezes a gente não tem ninguém por perto, ou não tem coragem de contar para ninguém, e conversa com Deus, com o anjo guardião, com um amigo espiritual? E, depois dessa conversa, sente uma paz que não sabe explicar.
A Doutrina Espírita nos lembra que nunca estamos sozinhos. Há sempre uma escuta disponível, mesmo no silêncio do quarto. E a psicanálise nos mostra que a fala tem força de cuidado quando encontra alguém do outro lado. As duas, cada uma do seu jeito, dizem a mesma coisa: ninguém foi feito para carregar a dor calado.
Tem mais uma coisa. A gente também pode ser essa escuta para alguém. Não precisa ser terapeuta nem ter respostas. Precisa de tempo, atenção e disposição para não interromper. Um filho que chega da escola calado. Uma amiga que manda uma mensagem dizendo "posso te ligar?". Um colega que parece diferente esta semana. Às vezes, a pergunta "como você está, de verdade?" e alguns minutos de silêncio atento valem mais do que qualquer conselho.
Agora, eu sei que nem sempre é fácil. Tem dias em que a gente está cansado para ouvir. Tem histórias que doem na gente também. E está tudo bem reconhecer seus limites. Escutar não é carregar a dor do outro para si. É fazer companhia a ela por um tempo. E, quando a dor é maior do que uma conversa dá conta, escutar também é ajudar a pessoa a procurar quem pode cuidar dela com mais recursos.
Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.
O primeiro: escolha uma conversa por dia para ouvir até o fim. Sem olhar o celular, sem pensar na resposta enquanto a pessoa ainda fala. Só ouvir. Depois, se quiser, pergunte: "e como você ficou com isso?".
O segundo: deixe-se ser escutado também. Pense em alguém de confiança e conte uma coisa que você vem guardando. Não precisa ser algo grave. Pode ser um cansaço, uma dúvida, uma saudade. Às vezes a gente só descobre o tamanho do que sente quando fala em voz alta.
E o terceiro: reserve alguns minutos, à noite, para uma prece sincera, do seu jeito. Sem fórmula. Conte o seu dia como contaria a um amigo. E, se lembrar de alguém que está passando por um momento difícil, envie a essa pessoa um pensamento de carinho. A Doutrina Espírita nos ensina que podemos orar uns pelos outros, e que esse pensamento chega como conforto.
Fica aqui uma pergunta para você levar com você:
Quem foi a última pessoa que te escutou de verdade, e para quem você pode ser essa escuta hoje?
Você não precisa ter todas as respostas para fazer bem a alguém. Às vezes, basta estar ali. E, quando o mundo parecer barulhento, lembre que existe sempre uma escuta disponível para você, aqui e no plano espiritual.
E se você quiser uma voz para te acompanhar nos seus dias, o nosso aplicativo está te esperando em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. E hoje, no Dia do Radialista, fica também o convite para a nossa rádio: toda noite, às 23h, o programa "Acalme sua Mente" está no ar para fazer companhia a quem precisa desacelerar. Porque o cuidado continua todos os dias.
Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.