Por Dayele Assis · 2026-10-20
Tem um envelope em cima da geladeira. Ou talvez seja uma notificação no aplicativo do banco que você ainda não abriu. Você sabe mais ou menos o que tem ali. E, justamente por saber, vai deixando para depois.
Deixa eu te perguntar uma coisa, com carinho: qual foi a última vez que você conseguiu conversar sobre dinheiro sem sentir um nó na garganta?
Talvez com quem divide a vida com você. Com os seus pais. Com um amigo. Ou até com você mesmo, olhando as contas de frente.
Se a resposta demorou a vir, você não está sozinho. Uma pesquisa da 99pay com 1.500 brasileiros de todas as regiões, divulgada no último domingo, mostrou que 87% das pessoas sentem que a situação financeira afeta o próprio emocional. Entre as maiores fontes de angústia estão as contas atrasadas e a dificuldade de guardar dinheiro (37%), o medo de uma despesa inesperada (33%) e as dívidas que só crescem (31%). Quase nove em cada dez. Quando eu olho para esses números, penso em quanta gente está carregando esse peso calada, achando que é a única.
Porque dinheiro, na nossa cultura, virou quase um segredo. A gente fala de novela, de futebol, até de doença com mais facilidade do que fala do saldo da conta. Pergunte o salário de alguém e o clima muda na hora. Conte que está apertado e parece que você confessou um fracasso.
E sabe o que é curioso? Freud percebeu isso há mais de cem anos. Num texto de 1913 sobre o início do tratamento, ele comentou que as pessoas lidam com o dinheiro do mesmo jeito que lidam com a sexualidade: com vergonha, com pudor e com uma boa dose de fingimento. E ele dizia que o analista não deveria entrar nesse jogo, que falar de dinheiro com naturalidade fazia parte do cuidado. Eu acho isso muito bonito. Porque continua verdadeiro: aquilo que a gente esconde costuma pesar mais do que aquilo que a gente consegue nomear.
Para a psicanálise, o dinheiro nunca é só dinheiro. Ele carrega histórias. Tem gente que cresceu ouvindo que "dinheiro não dá em árvore" e hoje sente culpa até de comprar um café. Tem gente que viu os pais brigarem por causa de conta e aprendeu que falar de dinheiro é sinônimo de briga. E tem gente que gasta para tapar um vazio que não tem nada a ver com o que está na sacola. Muitas vezes, a forma como a gente lida com as contas repete, sem perceber, alguma coisa que aprendeu lá atrás, dentro de casa.
Talvez você tenha se reconhecido em alguma dessas.
E aí entra o silêncio. O casal que não conversa sobre a fatura do cartão até ela explodir numa briga. O filho adulto que não conta para os pais que perdeu o emprego. A amiga que sempre diz "tá tudo bem" e, por dentro, está fazendo conta para chegar ao fim do mês.
Eu percebo uma coisa muito comum: a gente compara a nossa aflição com a dos outros e se cala. Aquela conta atrasada parece pequena perto do que um amigo está vivendo, desempregado ou com alguém doente em casa. "Pelo menos eu tenho o que comer", a gente pensa. E a gratidão é importante, sim. Mas aperto não é competição. A sua preocupação não precisa ser a maior do mundo para merecer ser dita.
E tem um ponto ainda mais delicado: quando o dinheiro aperta, a gente costuma misturar o que tem com o que vale. Como se a conta no vermelho dissesse alguma coisa sobre o nosso caráter. Como se quem deve fosse menos digno.
E aqui entra uma coisa em que eu acredito muito. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec dedica um capítulo inteiro a esse tema, com o título "Não se pode servir a Deus e a Mamon". Ali, a riqueza e a pobreza aparecem como provas, como oportunidades de aprendizado, e não como medida do valor de ninguém. Os bens materiais são instrumentos que a gente recebe por um tempo, para usar bem, e não aquilo que define quem a gente é. O Espírito não leva a conta bancária. Leva o que aprendeu, o que construiu por dentro e o bem que fez.
Isso não quer dizer que dinheiro não importa, nem que a gente deva ser descuidado com ele. Pelo contrário. Organizar as contas, planejar, honrar compromissos, ajudar quem precisa: tudo isso também é usar bem o que nos foi confiado. A diferença está em não deixar o dinheiro virar o dono da nossa paz. Eu gosto de pensar que servir a Mamon, no fundo, é viver com medo dele.
E tem uma palavra que eu quero deixar aqui com você: vergonha. Muita gente não pede ajuda porque sente vergonha. Não procura o banco para renegociar, não conversa com a família, não busca orientação. E a vergonha cresce no escuro. Quando a gente fala, ela começa a perder força. Não porque o problema some na hora, mas porque deixa de ser carregado sozinho.
Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.
O primeiro: abra o envelope. Seja ele de papel ou uma notificação. Olhe os números com calma, num momento tranquilo, talvez depois de uma prece ou de algumas respirações profundas. Não para se julgar, mas para saber onde está pisando. O medo do que a gente não vê costuma ser maior do que o tamanho real do problema.
O segundo: escolha uma pessoa de confiança e conte, mesmo que só um pedaço. Pode ser o companheiro, um irmão, uma amiga. Um "as contas estão me tirando o sono" já é uma porta que se abre. E, se for o caso, procure orientação de quem entende do assunto. Pedir ajuda para se organizar não é fracasso, é cuidado.
E o terceiro: repare de onde vêm as frases que você repete sobre dinheiro. "Isso não é para gente como eu." "Dinheiro é coisa suja." "Eu nunca vou conseguir." De quem você ouviu isso pela primeira vez? Às vezes a gente descobre que está carregando um medo que nem é nosso.
Antes de você seguir a sua terça-feira, fica aqui uma pergunta para levar com você:
O que você diria sobre as suas contas se não tivesse medo de ser julgado?
O dinheiro faz parte da vida, mas não diz quem você é. Você vale muito mais do que o seu saldo. E nenhuma dificuldade fica mais leve quando é guardada em silêncio.
E se o peso apertar no meio do dia, o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, tem mensagens para ficar com você de setembro a setembro: um minutinho de pausa, uma palavra de conforto, um lembrete de que você não está sozinho. Porque o cuidado continua todos os dias.
Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.