Voltar para o blog

Cuidar da mente não tem data: o que fica depois do Dia Mundial da Saúde Mental

Por Dayele Assis · 2026-10-11

Cuidar da mente não tem data: o que fica depois do Dia Mundial da Saúde Mental

Ontem foi o Dia Mundial da Saúde Mental. Talvez você tenha visto as postagens, as frases bonitas, os laços, os convites para se cuidar. E hoje, domingo, a timeline já mudou de assunto.


Mas deixa eu te perguntar uma coisa: como você acordou hoje?


Porque, se você acordou cansado, com aquele aperto no peito ou com uma tristeza que não sabe explicar, ela não foi embora junto com a data. Ela continua aí. E é justamente por isso que eu quis conversar com você hoje, e não ontem.

A dor não olha o calendário. O cuidado também não deveria olhar.


Eu acho muito importante que existam datas assim. Elas tiram o assunto do silêncio e ajudam muita gente a dar o primeiro passo. Só que a gente não cuida da mente em um dia. A gente cuida numa terça-feira qualquer, quando decide dormir um pouco mais cedo. Quando finalmente tem aquela conversa que vinha adiando. Quando consegue dizer um “não” sem se sentir culpado por isso.


É parecido com cuidar de uma planta. Ninguém rega uma vez por ano e espera vê-la florescer.


E sabe o que eu percebo? Muita gente passa o dia inteiro funcionando. Trabalha, cuida da casa, responde mensagem, sorri na foto. E por dentro carrega um peso que ninguém vê. Às vezes nem a própria pessoa se permite ver, porque logo vem aquele pensamento: “tem gente passando por coisa muito pior, eu não tenho do que reclamar”.


Talvez você já tenha pensado isso também.


Tem momentos em que achamos que o nosso problema no trabalho, por exemplo, é tão pequeno perto do problema que um amigo está tendo em casa que nem tem importância. Mas todo problema começa pequeno, até ganhar espaço na nossa mente e na nossa vida.


Então deixa eu te dizer uma coisa que às vezes não nos damos conta: sofrimento não é competição. A sua dor não precisa ser a maior do mundo para merecer cuidado.


Quando a gente empurra o que sente para depois, o que sente não desaparece. Freud percebeu isso há mais de cem anos: aquilo que a gente não consegue lembrar e colocar em palavras tende a se repetir. Volta no corpo, na irritação sem motivo, naquele mesmo erro que a gente jurou que não ia cometer de novo. É como se a vida insistisse em nos mostrar aquilo que ainda não tivemos coragem de olhar.


Por isso falar faz tanta diferença. Quando uma angústia ganha palavras, ela deixa de ser um peso sem forma. Vira algo que dá para olhar de frente, entender aos poucos e, com o tempo, transformar.


E aqui entra uma coisa que eu acredito muito. A Doutrina Espírita nos ensina que as aflições não são castigo nem abandono. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, quando fala dos aflitos, Kardec nos convida a enxergar as dificuldades como parte da nossa caminhada de aprendizado. Mas repara: isso nunca significou sofrer calado. Pelo contrário. O esforço próprio, o trabalho e a caridade sempre estiveram no centro, inclusive a caridade com a gente mesmo.

Joanna de Ângelis, no livro Plenitude, no capítulo sobre o sofrimento, traz uma frase que me faz pensar muito: “A maioria dos sofrimentos decorre da forma incorreta por que a vida é encarada.” Não é para a gente se culpar. É um convite: às vezes, mudar o jeito de olhar já começa a aliviar o peso.


Procurar ajuda, conversar com alguém, descansar, buscar tratamento… tudo isso também é uma forma de oração em ação. A fé não substitui o cuidado. Ela dá sentido e força para que o cuidado aconteça.


Tem um psicanalista que eu gosto muito, o Winnicott, que dizia que ninguém amadurece sozinho. A gente precisa de um ambiente que nos sustente. Quando éramos crianças, esse colo veio da família. Hoje, adulto, ele pode vir de um amigo, de uma comunidade de fé, de um grupo, de um terapeuta. Pedir apoio não é fraqueza. É reconhecer que fomos feitos para o encontro.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos pequenos para esta semana.


O primeiro: antes de dormir, escreva uma palavra só que resuma o seu dia. Cansaço, saudade, alívio, medo. Dar nome ao que se sente já é começar a cuidar.


O segundo: escolha uma pessoa de confiança e mande uma mensagem sincera. Não precisa ser um desabafo longo. Um “minha semana não está sendo fácil” já abre uma porta.


E o terceiro: reserve cinco minutos de silêncio. Pode ser uma prece, uma meditação ou só respirar devagar, prestando atenção no ar entrando e saindo. O silêncio também cuida.


Antes de você seguir o seu domingo, fica aqui uma pergunta para levar com você:

Se o cuidado com a sua mente não tivesse data marcada, por qual pequeno gesto ele começaria hoje?

Talvez você não consiga mudar tudo o que sente de uma vez. Ninguém consegue. Mas dá para decidir não atravessar isso sozinho. E isso, acredite, já muda muita coisa.


E se quiser companhia nessa caminhada, convido você a acessar o nosso aplicativo, app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Porque o cuidado continua todos os dias.


____________________________________________________________________________________________________________

Os conteúdos do Ressignificando Momentos têm finalidade reflexiva, espiritual e de acolhimento e não substituem acompanhamento psicológico, médico ou psiquiátrico. Se você precisa conversar agora, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br.


Outros posts