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A criança que fomos e as crianças que criamos

Por Dayele Assis · 2026-10-12

A criança que fomos e as crianças que criamos

Hoje é 12 de outubro. Dia das Crianças. E também dia de Nossa Senhora Aparecida, quando muita gente acende uma vela, faz uma prece e pensa no colo de mãe que cuida.


Talvez a sua casa esteja cheia de barulho hoje. Brinquedo novo espalhado pela sala, criança correndo, almoço de família. Ou talvez esteja silenciosa, e esse silêncio também diga alguma coisa.


Mas deixa eu te fazer uma pergunta diferente: e a criança que você foi? Como ela está?


Eu sei que parece estranho. A gente cresce, paga conta, trabalha, cuida dos outros, e acha que aquela criança ficou lá atrás, numa foto antiga. Só que eu percebo que ela não foi embora. Ela continua aqui dentro, e muitas vezes é ela quem reage antes de a gente conseguir pensar.


Sabe quando o seu filho faz birra no supermercado e, de repente, você se ouve falando exatamente a frase que a sua mãe falava? Aquela que você jurou que nunca ia repetir.


Talvez você já tenha passado por isso também.


Quantas vezes não ouvimos um “já falei para não fazer isso!”, e era justamente aquela brincadeira de descer o barranco que a gente tanto gostava? Pois é. Anos depois, a mesma frase escapa da nossa boca quase sem a gente perceber.


Freud dizia que aquilo que a gente viveu e não conseguiu elaborar, ou seja, entender e colocar em palavras, tende a se repetir. Não por maldade, nem por falta de amor. A gente repete porque é o caminho conhecido. É como andar no escuro dentro da casa onde cresceu: o corpo sabe onde ficam os móveis, mesmo sem enxergar.


E isso aparece muito na criação dos filhos. Quem cresceu ouvindo que chorar era frescura tem dificuldade de acolher o choro do filho. Quem nunca recebeu elogio fica sem jeito de elogiar. Quem foi muito cobrado às vezes cobra demais, ou, com medo de repetir, não consegue colocar limite nenhum.


Repara: não estou dizendo isso para você se culpar. Estou dizendo porque, quando a gente enxerga, ganha a chance de escolher diferente.


Pensa numa cena bem comum. Você chega do trabalho cansado, com a cabeça cheia, e o seu filho quer te mostrar um desenho. Você responde “agora não” sem nem olhar. Mais tarde, já deitado, aquilo pesa. E, se você parar um pouquinho, talvez lembre de quantas vezes também quis mostrar alguma coisa para alguém que não tinha tempo. A criança que você foi sente junto com a criança que você está criando.


Tem um psicanalista, chamado Winnicott, que tem uma ideia que, para mim, é um alívio: a mãe “suficientemente boa”. Ele dizia que a criança não precisa de pais perfeitos. Precisa de alguém presente, que acerta muito, erra às vezes e consegue reparar. São justamente essas pequenas falhas, quando vêm acompanhadas de carinho, que ajudam a criança a descobrir que dá para atravessar uma frustração sem desmoronar.


Isso vale para pai, mãe, avó, tia, para qualquer pessoa que cuida. A gente se cobra para não errar e, muitas vezes, para ser sempre melhor para os nossos filhos. Mas esquece que também tem a própria vida, que também precisa dos seus momentos. E esquece que a essência é a mesma da criação que tivemos: vez ou outra, vamos repetir os padrões que recebemos. Ninguém precisa ser perfeito. O importante é estar ali.


E aqui entra uma coisa que a Doutrina Espírita nos ensina: os nossos filhos não são uma folha em branco nem uma extensão de nós. Em O Livro dos Espíritos, na parte em que fala da infância, Kardec explica que o Espírito chega trazendo a sua própria história, e que esse tempo de fragilidade é uma oportunidade para que ele seja educado e se abra ao bem. Aos pais cabe uma missão: ajudar aquele Espírito a crescer.

Quando eu penso nisso, duas coisas mudam no meu olhar. A primeira é o respeito: aquela criança não veio para realizar os meus sonhos, ela tem um caminho que é dela. A segunda é a responsabilidade com carinho: o que a gente oferece nesses primeiros anos fica como semente.


E tem um outro lado nisso. Se cada um de nós também é um Espírito em aprendizado, a criança que fomos merece esse mesmo olhar. Ela fez o que pôde com o que tinha. E os nossos pais, muitas vezes, também. Eles criaram com as ferramentas que receberam, e algumas delas já vieram quebradas.

Isso não apaga o que doeu. Algumas feridas da infância são profundas e precisam de tempo, de cuidado e, às vezes, de ajuda profissional para serem olhadas. Mas entender de onde elas vêm já tira um pouco do peso de carregar tudo sozinho.


Hoje é um dia muito especial para muitas crianças. É o dia de ir à praça, à praia com os pais, de brincar com os brinquedos que ganharam. Mas também é dia de lembrar daquela que acolheu Jesus em seus braços, Maria de Nazaré, que aqui no Brasil reverenciamos como Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso país.


Talvez hoje, no meio da festa, valha a pena olhar para dentro também. Para aquela menina que queria ser ouvida. Para aquele menino que precisava de um abraço e recebeu um “engole o choro”. Eles ainda estão esperando um pouco de atenção. E quem pode oferecer isso agora é você.


Então, se você me permite, queria te deixar três gestos simples para esta semana.

O primeiro: procure uma foto sua de criança. Olhe com calma. Pergunte, em pensamento, do que aquela criança precisava naquela época. Às vezes a resposta vem em forma de saudade, às vezes em forma de lágrima. As duas são bem-vindas.


O segundo: separe dez minutos do seu dia para estar inteiro com uma criança, seja filho, sobrinho, neto ou afilhado. Sem celular por perto. Só brincar, ouvir, olhar no olho. Dez minutos de presença verdadeira valem mais do que uma tarde inteira de distração.


E o terceiro: quando perceber que repetiu algo que não queria, em vez de se castigar, repare. Volte e diga: “Mais cedo eu falei daquele jeito e não foi legal. Desculpa.” Uma criança que vê um adulto pedir desculpa aprende que errar não é o fim do mundo.


Antes de você seguir o seu feriado, fica aqui uma pergunta para levar com você:

Do que a criança que você foi precisava, e que você ainda pode oferecer hoje, a ela e às crianças que estão perto de você?


Ninguém consegue reescrever a própria infância. Mas a gente pode, sim, escrever um capítulo novo, com mais ternura, para nós e para quem vem depois. E isso, acredite, já é um presente enorme.


Se quiser seguir comigo nessa caminhada, o nosso aplicativo está esperando por você em app.ressignificandomomentos.com.br, com mensagens para ficar com você de setembro a setembro. Porque o cuidado continua todos os dias.

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